26 novembro 2008

FAROESTE CABOCLO - O LIVRO - CAPÍTULO 14

CAPÍTULO 14 - TEMIDO E DESTEMIDO

Ainda naquela noite.

- Natinho, chama o pessoal que temos uns negócios a acertar.

- Quem, João?

- Chama os quatro. O Alex, o Rodrigo, o China e o Mundo. Chame eles porque hoje quero dar uma supervisionada no serviço dos pontos. Depois da prisão, deu uma diminuída. Quero animar o pessoal.

"Os quatro" era como João se referia ao seu grupo predileto. Eram pessoas de sua confiança, fortes e que não tinham medo de nada. Eram corajosos a ponto de obedecer cegamente a uma ordem de João. Cada um deles já tinha alguma morte no currículo.

Meia hora depois estavam na rua. O primeiro ponto estava correto. O pessoal atento, sem usar drogas, como João mandava. Só usassem mais tarde, quando fossem parar o movimento.

João inspecionou um a um os pontos de venda de drogas que ele mantinha na região. Em dois pontos ele teve problemas.

Em um dos pontos João parou um pouco afastado do local e percebeu que tinha gente suspeita rondando o movimento. Demorou um pouco e mandou o China comprar alguma coisa do cara.

China foi, como se fosse um viciado.

João viu o China encostar no cara, conversar alguma coisa e voltar para o carro. Entrou no carro e mostrou ao João que alguém estava passando drogas no ponto de João.

Vamos pegar aquele rapaz. China voltou para conversar com o cara, enquanto o carro era ligado e encostava-se a ele. Rapidamente, o rapaz foi jogado dentro do carro. Levaram-no para um campo abandonado, onde era comum o encontro de traficantes e seus clientes.

- Qual o seu nome, rapaz?

- Esdras - falou o rapaz, preocupado. - O que vocês querem? É assalto? Toma o dinheiro...

- Que assalto, cara! Quem te mandou vender droga ali, no meu ponto? - perguntou João.

O rapaz entendeu onde havia entrado.

- Olha, cara, foi só hoje. Eu estava de bobeira e precisava vender alguma coisa para poder usar.

- Eu acho que você está mentindo.

João deu um murro no estômago do rapaz que caiu no chão, gemendo.

- Acho melhor você falar a verdade, senão você não sai daqui vivo...

O rapaz percebeu que não tinha muita coisa a fazer.

- Eu recebi o produto de uns amigos. Eu vim do Rio de Janeiro. Um pessoal me trouxe aqui e foi embora. Eu devia um dinheiro para eles lá no Rio e eles me trouxeram para cá, para vender para eles, até pagar a conta.

- E quem mais veio com você?

- Só mais um cara. Eu nem conheço. Está lá na outra rua. Daqui a pouco a gente vai embora. Estamos morando juntos.

João se preocupou.

Deixou Alex e Rodrigo no campinho e foram atrás do outro.

Levaram o rapaz no carro até onde ele disse que estava o outro rapaz. Se não fosse verdade, o matariam ali mesmo.

Era verdade. Lá estava o outro cara, perto de outro ponto de venda. Da mesma forma, empurraram-no para dentro do carro o levaram para o campinho.

- O que você estava fazendo ali, meu chapa? O que você estava fazendo no meu ponto? - gritou João.

- Pode falar, que o seu amigo já se abriu - disse China.

O rapaz percebeu que estava em perigo. Quando ia falar, Alex deu um murro em seu rosto. João segurou Alex e mandou ele ficar quieto.

- Esse safado... - disse Alex.

João ficou surpreso com Alex. Nunca era tão violento espontaneamente. Sempre esperava ordens, mas, hoje, estava tomando a liderança.

- Fica quieto, Alex - falou João. E virando-se para o rapaz: - Fala, cara, se não quiser coisa pior.

E o rapaz falou a mesma coisa. Era mandado do Rio de Janeiro.

- Escuta, rapaz - gritou João, para Esdras. - Você vai voltar para o Rio de Janeiro e dar um aviso aos seus amigos.

Virou para o segundo rapaz, e, a sangue frio, deu um tiro na testa dele, que caiu morto instantaneamente.

- Volta lá, e fala para esses caras para que eles não apareçam mais por aqui, senão a coisa vai ficar feia para o lado deles. Eu não quero ver a sua cara nem a de nenhum amigo seu por aqui. Entendeu?

O rapaz estava em estado de choque.

- Entendi... Entendi...

E saiu em desabalada carreira.

João não sabia que teria problemas terríveis no futuro. Ah, se ele tivesse bola de cristal...

No outro dia ele falou com Pablo.

- Pablo, quero que você observe o que está acontecendo. Ontem à noite tive que tomar as providências de expulsar dois caras do ponto nove. Estou achando que alguém está tentando entrar no nosso comércio.

- João, foi você quem matou aquele cara do campinho?

- Foi, sim. Quem te falou?

- O pessoal de lá. Não entendi nada, mas agora estou compreendendo.

- Pablo, tinham dois caras vendendo drogas no nosso ponto. Eu matei um e mandei o outro dar o recado de que aqui quem manda é a gente. Mas, eu não sei quem são os chefes deles. Parece que eles estavam só de olho como funciona o nosso esquema.

- Vou ficar de olho, João. Deixa comigo.

- Ah. Na próxima semana vou passar uns quinze dias em Porto Seguro, na Bahia. Eu iria só daqui a um mês, mas resolvi ir logo. Você fica de olho se aparece alguma novidade e me telefona, caso encontre algum suspeito. Você sabe que eu volto aqui na hora, e arraso com qualquer um que queira se intrometer.

- Eu sei, João. Só não sei se esse é o método certo, entendeu?

- O quê? Violência? A violência é tão fascinante...

- João, cuidado, você não pode ser tão violento...

João não ligou para o que Pablo disse e saiu. Estava preocupado com quem eram os chefes dos rapazes, mas achava que com a morte de um e a expulsão do outro o assunto seria encerrado.

Encontrou-se com Natinho.

- Natinho, providencie o que for necessário para passarmos uns quinze dias em Porto Seguro.Leve meu carro para um check-up, pois vamos nele. Providencie todas as reservas e o que for necessário. Vamos ver se viajar é bom mesmo.

- Ok, João. Quem mais vai com a gente?

- Ninguém. Vamos só nós dois. Lá não vai faltar companhia. Já escutei muita coisa desse lugar.

- Falou, João. Vou falar com o Eduardo para ver se eles nos indicam alguma coisa.

Uma semana depois estavam em Porto Seguro.

24 novembro 2008

FAROESTE CABOCLO - O LIVRO - CAPÍTULO 13

CAPÍTULO 13 - PRIMEIRA VEZ NO INFERNO - A PRISÃO

João não entendia o que havia dado errado.

- O que deu errado? Onde vazou? - perguntava João, para Cláudio e Marcos, que iam no mesmo carro que ele.

- Alguém nos dedurou... - falou Cláudio, também sem entender.

Eles não sabiam, mas o segurança que havia saído, suspeitou do novo vigilante e acionou a polícia, quando chegou em casa. Era só uma suspeita, mas que resultou na prisão de todos os envolvidos.

O seu camburão chegou à delegacia. Com muita brutalidade, João foi fichado e levado para uma cela. Ninguém conhecia João naquele meio. Trataram como um criminoso normal. Não o reconheceram como o poderoso traficante, o todo-poderoso de Brasília.

Foi colocado em uma cela, onde passou todo o tipo de humilhação. A princípio apanhou tanto que pensou que ia morrer. Todos os presos antigos o humilharam. Faziam-no ajoelhar, davam tapas na sua cara, chutes em sua barriga.

Quase sem forças, ainda foi estuprado. Era a violência que ele não conhecia. Ouvia falar, sabia que existia, mas não conhecia.

Dois dias depois ainda estava em estado de choque pelo que tinha passado.

Só com a visita de seu advogado foi que souberam quem era João de Santo Cristo. Uma parte da cela simpatizou com João e outra parte não gostava, devido a algum problema que eles já haviam tido no passado.

Os advogados de João tentavam a todo custo tirar João da prisão, mas estava difícil, já que a repercussão do roubo junto à mídia fora enorme. A notícia se espalhou como uma bomba no meio social. Diversos rapazes, ricos e de boa família haviam sido presos por roubo a uma fábrica.

E nem se noticiou o que havia de tão importante na fábrica. A mídia falava de um roubo a fábrica de determinado político, mas não especificava o que havia sido roubado, quanto havia de dinheiro no prédio, nem dava maiores detalhes. É claro que os políticos manipularam as notícias.

Essa agonia durou quase um mês.

João passou vinte e nove dias na prisão.

João voltou humilhado para o Morro. Pablo ainda estava preso e o comércio havia parado. Todo o sistema de tráfico havia sido prejudicado devido a João e Pablo terem se afastado. Alguns funcionários ficaram receosos de que a polícia iria estourar o Morro, mas Natinho, assim que soube da prisão, mandou limpar completamente o prédio.

Natinho telefonou aos advogados, fez os contatos com outros estados e deixou tudo parado até que fossem libertados os seus amigos, o que ele esperava acontecer nos próximos dias.

Pablo foi libertado um dia após João. Um mês afastados fez com que João e Pablo repensassem o modo como viviam.

Pablo se enclausurou. Parou de freqüentar as festinhas que aconteciam, e recusava a todos os convites que faziam.

João, ao contrário, se revoltou. Queria matar a todos os que fizeram sua humilhação no presídio.

Natinho, que agora ficava ainda mais perto de João, tentava amenizar o ódio que João sentia.

- João, não vai adiantar nada. Você não vai conseguir voltar ao passado e curar as feridas.

- Mas vou fazer com que esses desgraçados não façam isso novamente com outros coitados.

- Você precisa se acalmar... - falava Natinho.

- Acalmar? Você vai ver o que é se acalmar... Não estou preocupado com o que eles fizeram com meu corpo. Você acha que está doendo, que ficou marcas?. Natinho, é uma dor que dói no peito, dói no coração.

E deu ordens:

- Natinho, quero saber quem estava naquela cela. Quero saber quem está do meu lado e quem está do outro lado. E quero o mais rápido possível.

- Tudo bem, João, eu vou conseguir para você, fica tranqüilo.

João sorriu. Já sabia o que iria fazer.

Desceu ao escritório de Pablo.

- Pablo, como estão os negócios?

- Sei lá, João. Só tem cinco dias que a gente saiu de lá. Parece que o mundo deu uma guinada, perdemos alguns pontos, alguns que se diziam amigos fugiram, funcionários nos abandonaram. Está meio bagunçado.

- E você, Pablo? - perguntou João.

- Eu... Sei lá... Tem hora que quero abandonar tudo e ir embora, tem hora que quero vingança... Ainda estou confuso...

- Pablo, eu vou aprontar para cima dos caras. Vamos?

- Ah, João. Eu estou fora. Faz o que você quiser, onde eu puder ajudar eu lhe ajudo, mas eu não vou sair dessa sala para fazer nada...

João deu a volta na mesa, pegou na mão de Pablo e disse:

- Pablo, você está conhecendo um outro João. A partir de agora eu sou outra pessoa e vou fazer de tudo o que for possível para me vingar daqueles safados. A primeira coisa que quero que faça é conseguir engrenar o Morro, novamente. Faça esta empresa funcionar.

- Quanto a isso, João, deixa comigo. Vamos ser maiores do que éramos.

E voltaram ao negócio. Pablo tomou as providências necessárias para normalizarem as atividades do tráfico.

Os jornais, a partir deste dia e durante uns dois meses anunciavam em manchete uma série de crimes que estava acontecendo contra alguns bandidos da cidade.

Só quem era mais chegado sabia que era João que estava se vingando. Um a um, aqueles que o humilharam na prisão, estava morrendo. E João fazia o serviço pessoalmente, dando o último tiro, em muitos casos.

Natinho virou o braço direito de João, mas não concordava nem participava dos crimes que João andava fazendo.

Quando João saiu da prisão, refez seu grupo, agora mais bem armado e com pessoas diferentes. Alex começou a participar mais ativamente do grupo. Leila e Alex acabaram o namoro, devido à série de problemas que eles já vinham tendo e por ela não aceitar a participação no novo grupo de João. Sabia que eles partiriam para uma violência maior do que estavam acostumados. E isso poderia ter conseqüências desastrosas. Aliás, o namoro já não estava tão legal, mesmo.

Gabriela não mais se encontrava com João. Fez, com Leila, uma amizade enorme. Aonde uma ia, a outra estava também.

- Gabi, você está tão triste - comentou Leila.

Estavam no Parque da Cidade, vendo os pássaros, e sentindo o sol bater em suas peles, mesmo com o frio que fazia.

- Sei lá... Estou me sentindo tão sozinha... - disse Gabriela.

- Isso é paixão, Gabi - brincou Leila. - Sabe, eu fico pensando de vez em quando. Se um dia eu for rica, quero fazer que nem essas dondocas que existem por aí. Ir pegar os filhotes na escola. Ouvir Coltrane.

- Fumar unzinho!?! - riu Gabriela.

- Claro! Isso não pode faltar. O que você acha?

- Você sabe que eu não faço mais isso, mas entendo muito bem... Acho que é um sonho secreto de todo mundo. Nunca pensei nisso. Nunca sonhei com esta liberdade.

Gabriela lembrou-se de João, do tempo que ele dava todo o seu amor para ela. Lembrou-se do tempo que tinha só um pouco de João, mas era melhor do que agora, que não tinha mais nada. Depois que João se envolveu com a sua vingança, não ligava mais para ela.

- Por quê você ficou triste, Gabi? - perguntou Leila, vendo a mudança da amiga.

- Ah... Nada não... Lembrei de bobagens... Do passado...

- Do João?

O silêncio de Gabriela falava por ela.

- Adoro seus cabelos... - diz Leila, fazendo carinho em seus cabelos. - Adoro a tua voz. Por quê será que você não dá sorte com nenhum cara?

- Sei lá, devo estar agindo errado.

- Às vezes as coisas são difíceis, minha amiga...

- Eu sei, Leila, eu sei...

- Sabe, Gabi, acho que eu preciso de um homem...

- Ah, Leila, eu também!

E ficaram rindo do que falaram.

Enquanto isso, João conversava com Natinho, em sua casa. Eram quatro horas da tarde.

- Natinho, esses seus amigos vêm? - perguntou João.

- Ficaram de vir, João. Você vai conhecer pessoas maravilhosas, você vai ver.

- Só vou conversar com eles porque são seus amigos, senão, você sabe, esses negócios de compra e venda é lá com o Pablo.

- Eu sei, João, mas o que lhe custa conversar com os caras.

Eduardo e Mônica ficaram de visitar João, a fim de comprar uma casa. João e Pablo tinham bastante imóveis, alguns comprados e outros recebidos como pagamento do tráfico. Natinho era muito amigo do casal e fazia questão que João os conhecesse. Sabia que, para efetuar o negócio, nem precisaria da presença de João, mas achava que os dois eram uma boa influência na vida de João, que estava muito violento, ultimamente.

Às quatro e dez o casal chegou. Natinho os recebeu e os apresentou a João.

- João, esse é o Eduardo, meu amigo que lhe falei. E esta é a Mônica, esposa de Eduardo.

- Oi, muito prazer. Como estão? - João os cumprimentou, cortesmente.

- Tudo bem, João? Natinho nos fala bastante de você, e ficamos muito curiosos em lhe conhecer - falou Eduardo.

- Espero que esteja falando bem... - brincou João.

- Claro - falou Mônica. - Se você soubesse como ele idolatra voce... Parece que o considera mais que o pai dele.

- Nem tanto - falou Natinho.

Conversaram sobre diversas coisas até que João puxou o assunto.

- Eduardo, o Natinho falou que você está interessado em comprar uma casa.

- Pois é, João, ele estava falando que você tem alguns imóveis para venda, e nós aproveitamos esta desculpa para te conhecer.

- Você queria uma casa em que bairro? - perguntou João.

- Na verdade, eu e a Mônica estamos montando um consultório. Uma coisa pequena, mas que tivesse a nossa cara. Não sei se você sabe, mas ela é médica e eu sou psicólogo. Resolvemos fazer um trabalho em conjunto, cada um saindo de seu emprego atual. Já estamos planejando isso há um tempão e só agora conseguimos juntar algum dinheiro para realizar. Nós queríamos trabalhar aqui perto, você tem alguma coisa?

- Tenho um ponto aqui perto que cairia como uma luva para uma clínica.

E ficaram conversando sobre a localização do ponto, o que poderiam fazer, valores, etc. Até que Eduardo resolveu comprar o prédio. Estava tudo acertado.

- João, você é muito simpático. Gostei bastante de você. Agora sei porque o Natinho vive falando seu nome - disse Eduardo.

- Natinho fala demais - brincou João. - Mas o Natinho é meu melhor amigo. Gosto muito dele também.

E abraçou Natinho, levantando-o no ar. João era bastante forte e Natinho bem menor e mais magro. Sofreu nos braços de João.

- E vocês, estão casados há muito tempo? - perguntou João.

- Já! Faz mais de dez anos que a gente mora junto.

- Tem filhos?

- Temos gêmeos. Já tem nove anos. Dois meninos maravilhosos. E você João, é casado?

- Ainda não. Ainda não achei quem me tolere... - brincou.

- Que é isso... Mulher chove nos pés desse cara... Ele que é durão e não quer ninguém - disse Natinho. - É um garanhão!

João sorriu.

- Mas estou esperando aquela que vai me prender. Dizem que todo sapo tem sua sapa.

- Ah, ah, ah... No seu caso seria o quê? Uma sapa linda? - falou Mônica.

- Deixa disso... Estou com ciúmes... - brincou Eduardo. - Mudando de assunto, vocês viram que chato aconteceu com o Johnny?

- Muito chato. A gente tava lá, na hora do acidente, não é João? - falou Natinho.

- É... Foi muito chato mesmo... O cara era muito legal, eu gostava para caramba dele.

- E a Lê, hein? - falou Mônica. - Estava com aquele segredo o tempo todo. Eu não sabia de nada. E olha que eu conversei bastante com ela e ela não me disse nada...

- Acho que ela deveria ter falado com o Johnny. O Johnny era legal e iria entender. Acho que perdemos dois amigos por falta de diálogo.

- Depressão é duro, gente - falou Natinho. - Eu tive uma crise no ano passado que eu vou falar para vocês, só quem passa sabe o que pensa. Eu só pensava em tirar minha vida. Achava que isso resolveria os problemas.

- Mas não adianta - falou João. - O suicídio não resolve nada.

- Ainda estou com medo da Clarisse. Ela estava tão mal - falou Mônica.

- Você encontrou com ela esta semana? - perguntou Natinho.

- Esta semana, não. A última vez que a vi foi na época do acidente.

- Ah, então você vai ter uma surpresa... - falou Natinho. - Ela melhorou bastante. Conseguimos, eu e o João, levantar sua moral.

- Eu? - perguntou João, surpreso.

- Você está pagando o tratamento dela naquela clínica, você esqueceu?

- Ah, é mesmo... Eu não sabia que era para ela...

- E como você conheceu a Mônica - perguntou João, de surpresa para Eduardo.

- Ah, faz tanto tempo - falou Eduardo. - Parece que foi numa festa... Como foi, Mônica?

- Esqueceu? Foi naquela festa do Jaiminho...

- É mesmo! Fiz de tudo para chamar a atenção da Mônica.

- A gente tinha tanta coisa diferente e acabou dando tudo certo.

- João, essa menina me ensinou quase tudo o que eu sei - falou Eduardo, abraçando Mônica. - Quando nos conhecemos ela era bem mais esperta que eu. Eu era um molecão. Ela é mais velha que eu. Se formou primeiro, já andava e eu engatinhava.

- Que engraçado... É mesmo? - perguntou João.

- Se é? Ela fazia muitos planos, e eu só queria estar ali, sempre ao lado dela. Fui aprendendo os macetes da vida. A gente fez muita coisa juntos.

- Evoluímos... - brincou Mônica.

- Já tivemos bastante aventuras. Viajamos, fizemos cursos, um monte de coisa. Você viaja muito, João?

João parou e percebeu que não viajava, mesmo tendo condição.

- Não, Eduardo, eu quase não viajo.

- Você precisa viajar. Você precisa conhecer o Brasil. Tem cada lugar incrível. Nossas praias, montanhas, vales. O Brasil tem tanta diversão. Já fizemos tanta coisa. Voamos em balão, de asa delta, até descemos corredeiras de caiaque.

- Conta daquela vez que pulamos de Bungee Jump... - falou Mônica.

- Foi lá no Ceará. Ela insistia que eu pulasse e eu insistia que ela pulasse. Aí ela disse: "Você tem medo!" e eu disse: "Quem tem medo é você!". Ficamos nesse empurra-empurra e o cara nos convenceu a pularmos juntos. Pulamos. Quando a gente foi conversar...

- ...os dois estavam morrendo de medo... - completou Mônica.

- As minhas diversões eram diferentes - falou João. - Sempre fui beberrão, briguento e curtia outras coisas. Se fosse lembrar do passado só podia lembrar da primeira vez que briguei, da primeira vez que bebi, etc.

- E como foi a primeira vez que bebeu? - perguntou Eduardo.

- Ih... Aquele gosto amargo ficou na minha boca por mais tempo do que eu gostaria... Foi terrível... - e todos riram.

- E vocês vão viajar este ano? - perguntou Natinho a Eduardo e Mônica.

- Este ano, não. O nosso filhinho está de recuperação e nós não poderemos... Já pensou no que é uma família?

E todos riram.

- Eduardo, vamos embora? - perguntou a Mônica.

- Ainda é cedo! - falou João. - Gostei muito de vocês.

- É que a gente ficou de ir no cinema - falou Mônica. - Que horas são, Edu?

- Já são quase nove. Nossa! Como o tempo passou rápido!

- Vamos perder o filme...

- Calma. A gente chega na sessão das dez...

- Está cedo ainda...

- Está nada, João.

- Então apareçam mais vezes. A gente precisa se conhecer mais...

- Tudo bem!

- Então você vem no dia que marcamos com o Pablo para acertarmos tudo sobre a casa, ok?

- Ok, João.

E despediram-se.

- Natinho, que pessoas legais. Se você tiver mais amigos assim, eu quero conhecer. Parece que a gente nem vive do modo que vive. São tão alegres, né?

- E como são, João. Mas todos nós podemos ser assim, basta a gente procurar...

- Tenho algumas coisas a fazer, Natinho, mas, neste verão nós vamos viajar. Vamos para uma praia na Bahia. Que tal Porto Seguro?

- Não conheço Porto Seguro...

- Então vamos nós dois... Neste verão nós vamos para Porto Seguro.

22 novembro 2008

FAROESTE CABOCLO - O LIVRO - CAPITULO 12

CAPÍTULO 12 - ALGUMAS AVENTURAS

João era um negro muito bonito. Era alto, forte e sempre bem produzido. Usava roupas caras, tinha carros novos, e convivia com os figurões da cidade.

Suas conquistas amorosas eram inúmeras, mas algumas eram marcantes. As mulheres sempre são atraídas pelo poder, mas no caso de João era o conjunto da obra. Status, dinheiro e carinho. A fama de João como um verdadeiro garanhão, era espalhada. Mulheres solteiras e casadas o procuravam.

Mas, João tinha o cuidado e o caráter de respeitar algumas virtudes. Não saía com mulher casada, mas não perdoava as solteiras. Não aceitava sair com moças virgens.

Era extravagante. Saía com mais de uma mulher ao mesmo tempo. Contratava festinhas particulares e realizava diversas fantasias que o dinheiro permitia.

Ao mesmo tempo suas conquistas cresciam. Mulheres e moças disputavam a sua presença. E muitas vezes disputavam tanto que saiam no braço, comparando-se uma a outra.

João, ao contrário, não se envolvia seriamente com nenhuma delas. Sempre tinha alguma preferência, mas não se completava com nenhuma, a ponto de querer um compromisso mais sério.

Gabriela era uma delas. Era uma morena alta, corpo escultural, dezoito anos. Apaixonou-se por João quando o viu em sua festa de aniversário. Foi amor à primeira vista. Pelo menos por parte dela.

Estava envolvida com João a pouco mais de seis meses. Nos primeiros dias era muito amor. João se dedicou mais tempo para Gabriela.

Em uma noite no apartamento de João, Gabriela se declarou para João. O tiro saiu pela culatra. João não queria envolvimento sério com nenhuma mulher e se afastou aos poucos. Mesmo assim, mantinha encontros com Gabriela, mas nada tão sério.

Gabriela participava das festinhas que João fazia. Não precisava nem ser convidada que já estava lá, maravilhosa, linda, em seus vestidos colados, com adornos de ouro, que o próprio João lhe havia dado.

- João, eu me apaixonei por você. Não sei viver sem você.

Uma noite, Gabriela se revela.

- Gabi, eu também te amo.

João falou sem emoção, enquanto vestia suas roupas, preparando-se para mais um dia de trabalho.

- Não vá embora, fique um pouco mais. Ninguém sabe fazer o que você me faz.

- É exagero... - disse João.

- Pode até não ser. O que você consegue, ninguém sabe fazer.

- Deixa disso! Eu sou um cara normal. Você é que é maravilhosa. Linda, gostosa e perfeita. Você sabe satisfazer todas as minhas vontades. Você vai arrumar um cara e será muito feliz.

Gabriela não queria ouvir aquilo. Queria que João fosse esse cara. Mas sabia que precisava ir aos poucos, conquistando, se aquilo fosse o que o destino houvesse preparado para ela.

Sabia que precisava manter a calma.

- João, como você aprendeu a ser tão experiente?

- Sempre fui muito malandro. Desde cedo eu já aprontava, já comia as menininhas. Ou elas me comiam, sei lá! Mas, uma coisa que me marcou muito e que ficou na minha cabeça foi a vez que um bêbado me falou, quando eu morava na Bahia, numa cidadezinha que nem existe no mapa.

- O que ele falou? - perguntou Gabriela.

- Simplesmente: "Quando você for transar, observe estas quatro regras: não tenha medo, não preste atenção, não dê conselhos e não peça permissão". E eu tenho tentado seguir isso. Não tenho medo de enfrentar nenhuma mulher, nem topar qualquer desafio que ela fizer. Não presto atenção em mim, nem me preocupo com resultados, faço primeiro para a mulher, depois para mim. Não dou conselhos, porque eu acho que cada um sabe o que pode e não pode fazer. E faço tudo, na hora que tenho vontade, sem pedir permissão. Já pensou: Amor, posso beijar sua boca? Seria ridículo.

- Onde mora este bêbado? Tenho que agradecer a ele... - brincou Gabriela.

- Longe, muito longe... - João lembrou da Bahia. Há tanto tempo...

Gabriela lembrou-se da primeira vez. Estava linda. Sabia do seu poder de sedução. Foi fácil seduzir João. Ele era um garanhão.

A primeira transa foi apenas uma semana depois que eles se conheceram. Ela não era mais virgem, mas não era tão experiente.

Lembrou-se da conversa, ainda na cama. Ele só a conhecia por Gabi.

- Qual o teu nome?

- Gabriela.

- Qual o teu signo?

- Virgem.

- Quem modelou teu rosto?

- Meus pais. Me fizeram com tanto carinho...

- Teu corpo é gostoso...

- Você também é o máximo...

- Teu rosto é bonito.

E a beijou demoradamente. Parecia que nunca haveria um fim.

Mas houve. Não um fim como nos filmes de romance. Foi um afastamento.

Foi nessa época que Gabriela conheceu Leila.

Gabriela participava da gangue de João, mas não negociava drogas. João, a princípio, não permitiu que ela controlasse nada no Morro. Depois de algum tempo, deixou que ela fosse fazendo trabalho de suporte, posteriormente a contratando como auxiliar. Mas, a transferiu para o setor de Pablo.

Leila era uma menina muito bonita, comunicativa, que rapidamente conquistou Gabriela. Fizeram uma amizade muito forte. No Morro, era a melhor amiga de Gabriela.

Um mês depois, João ficou curioso com aquela garota que estava freqüentando suas festinhas como convidada de Gabriela.

- Quem é essa garota, Gabi? - perguntou João.

- Ela é a Leila. Ela me disse que trabalha no Correio.

- Ela é bonita. Vamos precisar dela para um trabalho. Será que ela topa? - perguntou João.

- Ela é legal. Compra do nosso pó, mas não é viciada. Compra mais para o namorado.

- Ela tem namorado?

- Ela namora um menino eletricista. Estão falando em casamento, mas ela me disse que não quer se casar.

- Por quê?

- Não tem certeza... Ainda é nova. Não tem certeza de que quer viver o resto da vida com esse cara.

- Quero conhecê-la. Quero que me apresente... - pediu João.

Gabriela foi até a Leila, conversou com ela e voltaram.

- João, esta é a Leila.

- Prazer, Leila, seja bem vinda - disse João.

- Prazer. Obrigada.

- O que você faz da vida, Leila?

- Eu trabalho no Correio. Vivo andando para cima e para baixo.

- É mesmo. Qual o bairro que você trabalha.

- Aqui no centro mesmo.

- Você quer fazer um bico, aqui para gente? - perguntou João.

- Um bico? O que você quer dizer com isso?

- Ah, sei lá, gostei de você. Depois a gente conversa melhor, falou?

- Tudo bem. Foi um prazer.

- Para mim também. Fique à vontade. Vou conversar um pouco com a Gabi.

E, pegando no braço de Gabriela, foram para outra sala.

- Gabriela, depois eu falo o que pretendo. Por enquanto, quero que você converse com a Leila e a deixe à vontade. Quero contratar ela e o namorado. Peça que os dois venham amanhã à tarde, aqui no Morro. Pode ser?

- Claro, João. Você não quer me falar o que pretende?

- Ainda não. Depois eu lhe falo. Não é nada de mais. Fica tranqüila. Se são seus amigos, também são meus amigos.

- Ah, João, você é demais. É por isso que eu te amo... - falou Gabriela, abraçando-o.

- Eu também, Gabi.

E saiu.

Gabriela encontrou-se com Leila e ficaram conversando.

- Leila, se o João gostou de você é bom sinal. Ele ajuda a todo mundo de quem ele gosta. Você vai ver.

- E por quê ele quer ver o Alex?

- Sei lá. Vocês não estão namorando? Ele quer ajudar os dois.

- Ah, tudo bem. Amanhã a gente vê o que ele pretende.

João, sabendo que os dois usavam drogas, usou o pretexto de venderem o produto entre os seus colegas, e com isso ganhariam algum dinheiro. Facilitou bastante as coisas para eles.

Ninguém entendia a bondade de João com os dois, mas João estava planejando algo bem grande. João estava planejando o roubo na fábrica que ficava na rua em que Gabriela trabalhava. Isso bastava.

Mas, João só conversava sobre o roubo com quem estava por dentro dos planos. A princípio precisava confiar nos dois para ver até onde poderia usá-los.

João tinha concordado com o roubo à Fábrica com alguma relutância. Seus amigos o convenceram.

- João, o que você sente não é nada perto da emoção de um roubo desse tamanho - diziam seus amigos.

Nenhum dos quatro amigos de João precisaria roubar a Fábrica. A emoção, o prazer da aventura era que os estava fazendo agir daquela forma. Eles já tinham dinheiro, tinham pais ricos, usavam drogas à vontade, mas, depois que souberam o que aconteceria naquela fábrica, resolveram se dar bem para o resto da vida.

Um dos rapazes era amigo do filho do dono da Fábrica, que era um político muito influente na cidade. Em uma noite de bebidas e drogas, o rapaz acabou entregando todo o esquema. Ele havia dado todos os detalhes. Haveria um grande pagamento envolvendo alguns milhões de dólares. O dinheiro ficaria na Fábrica apenas uma noite, até a manhã seguinte, quando seguiria de avião para outro país.

O negócio estava envolvendo alguns políticos desonestos. Nenhum deles poderia fazer movimentação do dinheiro diretamente no Brasil.

- João, com o seu poder, com a sua estrutura, vai dar para fazer tudo direitinho. Vamos fazer um roubo bem feito.

- Mas eu nunca fiz isso. Não, nessa proporção. E eu estou muito bem da forma que estou - respondeu João.

- Parece que você está com medo. Lembre-se, João: A primeira vez é sempre a última chance.

João não tinha nada a perder mesmo. Com a sua influência poderia fazer o que queria. E seus melhores amigos, os rapazes mais ricos da região, estavam envolvidos, por quê ele não participaria?

Depois de certo tempo, ele resolveu participar:

- Vamos lá, tudo bem, eu só quero me divertir...

A preparação do plano foi toda feita no Morro. João acionou as pessoas que podiam ajudá-lo no sucesso do roubo. Dois policiais, Pablo, cinco membros de sua gangue, e os quatro rapazes que estavam já envolvidos.

Leila ajudou João conseguindo informações sobre a vigilância da Fábrica. Ela chegava com sua simpatia e conversava bastante com o pessoal que trabalhava na portaria da Fábrica. Como funcionária do Correio, aquilo foi bem fácil. Ela conseguiu informações importantes.

Alex, seu namorado, faria parte da turma que entraria no assalto. Como ele era eletricista, seria o responsável pela parte elétrica, como desligar alarmes, etc.

Fernando e Gabriel seriam os motoristas. Eram os melhores pilotos que João tinha e eram de total confiança.

Jaime e Marcos fariam parte da turma barra pesada. Eram pessoas que já haviam participado de diversas manobras do tráfico do Morro. Eram pessoas inteligentes que saberiam agir em caso de necessidade.

Os amigos de João, os quatro, seriam participantes diretos, sendo da linha de frente. Era o prazer, não o dinheiro, que os incentivava.

Na véspera do roubo, se reuniram para ver os últimos detalhes.

Todos os que iriam participar do roubo estavam presentes. Inclusive Henrique.

- Pessoal, este aqui é Henrique, que vai trabalhar no roubo da Fábrica. Ele é segurança e vai trabalhar na noite que formos entrar no prédio.

Todos olharam para Henrique e ficaram satisfeitos em saber que alguém da segurança estava participando do roubo. Ficaram mais confiantes.

- Quem guarda os portões da Fábrica? - perguntou João.

- Há dois seguranças sempre - explicou Henrique. - Trocam de turno a cada seis horas. Amanhã, eles mudarão de turno de quatro em quatro horas. Exatamente à meia-noite haverá uma troca. Eu entro neste horário e acho que é aí que devemos agir.

E ficaram passando todos os papéis, quem deveria fazer o quê. Após a reunião, houve uma oferta de bebidas e drogas, por conta de João.

Já estavam comemorando há quase uma hora, quando Cláudio, um dos seus amigos ricos, ofereceu heroína para João:

- João, você já usou isto? - e mostrou o material.

- Heroína? Não. Estou satisfeito com meu pó...

- Então você não conhece nada. Quem nunca usou heroína não sabe o que é voar...

- Eu já vôo muito com meu produto.

- Se você quiser, tenho mais aqui. Dá para dividir. - ofereceu Cláudio.

João já estava meio bêbado, e o efeito do pó já estava passando. A vontade de usar a maldita heroína era imensa. Ainda mais quando ele viu que Cláudio iria usar.

- Tudo bem, vamos lá.

João voou. Não sabia que o efeito da heroína era tão bom. Como aquilo o satisfazia!. Foi a sua primeira, de muitas vezes.

No outro dia, perto da meia-noite já estavam se preparando para atacar. Tudo aconteceu como combinado.

Alguns dos rapazes pegaram Henrique perto de sua casa. Como era habitual, Henrique ficou de passar na casa de João Luiz, que iria trabalhar com ele naquele período, e iriam a pé para o trabalho. João Luiz morava perto da Fábrica e ia andando para o trabalho.

Devido aos assaltos que ocorriam, eles sempre andavam juntos. Tanto na entrada quanto na saída do trabalho.

Só que nesse dia, quando iam passando por uma esquina, os rapazes atacaram-nos, acertando principalmente João Luiz, que desmaiou e foi carregado para um carro. Marcos iria substituí-lo no plantão.

À meia-noite houve a troca de segurança. Jorge e Marcos substituíram os seguranças que estavam saindo.

Um dos seguranças desconfiou e perguntou:

- Você é novo? Não te conheço!

- Oi, eu sou o Marcos. Trabalho na outra filial, mas me transferiram para cá, hoje. Acho que é por pouco tempo.

- Prazer. Seja bem-vindo - falou o segurança, saindo.

Assim que os dois seguranças foram embora, o plano começou. Houve a chegada dos carros com o restante do pessoal. Alex desligou todos os alarmes. Os rapazes entraram pela porta que havia sido aberta por Jorge e não deram chance ao restante dos seguranças de se defenderem. Todos os seguranças que trabalhavam internamente foram surpreendidos e amarrados. Apenas um deles reagiu e foi morto no local.

Tudo corria bem, quando escutaram o barulho de carros do lado de fora. Houve tiroteio e um anúncio:

- Saiam com as mãos para cima. Vocês estão cercados.

Era a polícia. Algo havia dado errado. O que seria?

Tentaram por meia hora uma negociação, tendo os vigilantes como reféns, mas não adiantou. Eles não eram ladrões profissionais para negociarem com a polícia. Renderam-se.

Todos foram presos.

20 novembro 2008

FAROESTE CABOCLO - O LIVRO - CAPITULO 11

CAPÍTULO 11 - JOÃO VÊ A MORTE DE JOÃO ROBERTO

Natinho crescia a olhos vistos em seu setor de vendas. Fazia amizades e controlava a região. Sabia respeitar tanto a João quanto a Pablo como patrões. Sem bajulação, mas sempre com muito respeito.

Natinho ia a muitos lugares que João e Pablo freqüentavam, e João começou a participar da vida de Natinho.

Em um desses eventos, ocorreu um acidente muito sério.

Natinho fez uma freguesia nos arredores de seu ponto de venda. Tinha diversos amigos na faculdade e no colégio, ali perto. Freqüentava os prédios, como se fosse um estudante normal. E muitas vezes passou drogas ali dentro, mesmo.

Tinha alguns amigos que eram mais chegados. Um deles era o João Roberto. Johnny, como era chamado, era querido por todos. João Roberto era um cara legal, animado, sempre com o seu violão de lado. Tocava em qualquer lugar que houvesse um grupinho de rapazes ou moças. Era muito hábil em tocar os cantores brasileiros, mas curtia mesmo tocar Rolling Stones, Beatles e outros artistas internacionais.

Johnny tinha uma namorada, a Letícia; Lê para os mais íntimos, como ela dizia. Lê era animada, já tinha seus planos de futuro: seria psicóloga. Até que um fato muito ruim aconteceu em sua vida. Ela havia sido estuprada.

João e Natinho estavam no parque em frente ao colégio, falando sobre Lê.

- João, eu não entendo como alguém pode estuprar uma mulher, hoje em dia. Sexo é a coisa mais fácil que se tem, mas uns caras querem as coisas proibidas, com violência. Não dá para entender.

- Eu também não entendo. Eu sempre tive facilidade com mulheres. Desde cedo conheci as manhas para dar prazer a uma mulher. Depois de um certo tempo, elas me procuravam e me ensinavam cada coisa. Nunca forcei uma transa.

- E a Lê sofreu, cara. Eu vou te falar uma coisa. Sabe o Johnny, o namorado dela?

- Eu conheci o Johnny naquele dia lá no Barzinho da Janaína, lembra? Tava rolando um rock, aí chamaram o cara para tocar Satisfaction, dos Stones. Você lembra?

- Ah, lembro. Pois é, cara. Ele não sabe de nada do estupro da mina. Já tem um mês que aconteceu. Eu sou amigo íntimo dela. Ela me contou, mas não tem coragem de contar ao Johnny.

- Puxa, cara, que chato!

- Se é. E o que é mais chato é que ela entrou em depressão e o Johnny não sabe porquê. O Johnny acha que ela se apaixonou por outro cara e o negócio não deu certo. Depois do estupro eles se encontraram pouco e o pouco que se encontraram brigaram mais do que deviam. Não sei onde vai acabar.

- Mas ela devia se abrir com o Johnny - falou João. - O cara vai entender e ajudá-la.

- Todo mundo acha isso, mas ela não! Ela acha que ele vai se afastar. Eu acho que ele vai se afastar se ela continuar do jeito que está.

Já havia passado das onze da noite. Haviam prometido uma série de pegas para aquela noite. Johnny era fera. Era o melhor. Tinha um Opala azul metálico, que era conhecido por todos. E para aquela noite havia marcado um super pega contra o Otávio, outro fera. O que todos esperavam há bastante tempo, havia chegado. Hoje eles saberiam quem era o melhor: Johnny ou Otávio?

Natinho falou com João:

- Olha lá o Johnny. Vamos lá falar com ele?

Johnny estava sentado em seu carro, com a porta aberta. As pernas para fora do carro, ouvia música. A banda Cat Powers tocava em seu CD Player. Completamente depressivo. Aquele não parecia o Johnny, aquele cara alegre, para frente e sempre bem humorado.

- E aí, Johnny? Como está? - disse Natinho.

Johnny levantou a cabeça, olhou para Natinho e João.

- Tudo bem, Natinho. E você? - e esboçou um sorriso.

Natinho imediatamente percebeu que não estava nada bem.

- Vai ter pega hoje? Você não parece legal!

- Ah, vai... A minha vida é isso...

- O que aconteceu? Por quê tanta tristeza? Como vai a Lê?

- Ah, Natinho, vai mal. Tá triste, cara, nem parece a mina que eu conheci a um ano atrás. Não sei o que aconteceu, cara, ela mudou demais. Quase agora fui na casa dela, e até brigamos.

- O que aconteceu, cara? - perguntou João.

- A mina mudou demais. Se ela me falasse o que ela quer, mas ela não conversa. Passa tanta coisa na minha cabeça. Não sei mais de nada. Não sei mais o que fazer. Aquela mina era tudo para mim. Sem ela, minha vida não tem mais sentido. Queria tanto ajudá-la, mas ela não me deixa. Tenho as minhas dúvidas.

- Não se precipite, Johnny. Deve ser só uma fase, e rápido isso passa. De repente volta a alegria no rosto dela.

Mas Johnny não se alegrou. Sabia que o que tinha ocorrido era muito sério, senão ela tinha falado com ele.

- Johnny - falou Natinho. - Pega isso. - e entregou um papelote da pura. - Essa é por conta da nossa amizade.

- Valeu, Natinho, vou precisar para daqui a pouco.

Despediram-se. João e Natinho foram se afastando.

- João, não sei não, ele, hoje, estava mais abatido do que o normal. Ele tava com um sorriso estranho. Tomara que ele não esteja planejando nenhuma besteira. Sei lá, eu tenho uma má-impressão.

- Ah, Natinho, deixa para lá. Você está imaginando bobagens.

- Tomara que sim, João. Tomara que eu esteja imaginando.

E saíram.

Meia hora depois, viram que Johnny acelerou mais do que podia na Curva do Diabo, onde aconteciam muitos acidentes. Um caminhão de combustível vinha em direção contrária e Johnny não desviou. Acertou em cheio. A explosão foi enorme. As labaredas que subiram brilharam o céu, com um misto de azul, amarelo e vermelho.

João e Natinho sabiam que Johnny era muito bom para ter errado a curva. Johnny era fera demais para vacilar assim. Eles sabiam que Johnny havia se matado.

No outro dia foi o enterro de Johnny.

João, Pablo e Natinho compareceram à cerimônia. Ninguém acreditava como um rapaz tão novo sofria tanto. Não se podia sofrer por amor com aquela idade.

Pelo menos era o que eles pensavam.

Ainda estavam na cerimônia quando chegou outra notícia chocante. A Letícia havia se suicidado. Quando Lê soube do acidente que havia vitimado Johnny, ela não agüentou o choque e se desesperou. Tomou calmante, adormeceu, mas, quando recuperou do choque, se jogou da janela do quinto andar.

- Nada é fácil de explicar - dizia Natinho. - Por quê esta idade é tão difícil. Eles só tinham dezesseis.

- Eu tive uma crise séria, nesta idade, também - disse João. - Mas, para mim foi construtivo. Depois da minha crise eu consegui me transformar em outra pessoa. Eu conheci a política e batalhei por mudanças na minha cidade.

- É mesmo? - falou Pablo. - Você nunca me falou disso.

- Foi um tempo muito difícil. Ao mesmo tempo em que eu ia descobrindo coisas maravilhosas, como poder ajudar aos outros, eu ia descobrindo o lado podre do poder.

- E por quê você não entra na política? Aqui é o lugar dos políticos - perguntou Natinho.

- Quem sabe... Quem sabe...

Depois da cerimônia, Natinho convidou:

- Eu tenho uma amiga, aqui perto, que está passando uma crise muito séria. Vamos passar na casa dela?

- Ah, sai dessa, Natinho. Tá virando assistente social? - falou João.

- Poxa, João, ela é minha amiga há muito tempo. E, sei lá, era amiga da Lê. Não sei como ela ficou depois de ter perdido a amiga. Vamos passar lá. É rapidinho.

- Vamos fazer o seguinte. Eu deixo você lá, falou?

- Tudo bem. Já é alguma coisa.

João e Pablo deixaram Natinho no prédio de Clarisse e foram para o Morro.

Natinho encontrou os pais de Clarisse na sala, entristecidos.

- Como vão as coisas, dona Márcia?

- Mal, meu filho. Muito mal. A Clarisse está presa no banheiro, agora. Não sabemos o que pode acontecer.

- Eu posso falar com ela? - pediu Natinho.

- Claro, filho. Vamos ver se ela quer falar com você.

Foram até a porta do banheiro.

- Clarisse! - gritou sua mãe. - Clarisse! O seu amigo Natinho está aqui, e quer falar com você.

- Oi, Clarisse, posso falar contigo? - perguntou Natinho.

O silêncio que dominou o ambiente foi assustador. Já estavam assustados com o que tinha acontecido com Johnny e Lê, e estavam com medo da reação de Clarisse.

De repente, ouve-se um destrancar de chave. Clarisse falou, com uma voz arrastada:

- Entra aqui, Natinho.

Natinho balançou a cabeça para a mãe de Clarisse e entrou. Lá dentro encontrou Clarisse com diversas marcas de cortes em seu corpo. Seus tornozelos sangravam.

- O que você está fazendo? Me dê aqui esse canivete.

Clarisse entregou, passivamente, o canivete a Natinho. Parece que uma onda de paz havia entrado naquele banheiro. Clarisse abraçou Natinho.

Chorou copiosamente.

- Está doendo, Clarisse?

- A dor é menor do que parece... Você viu o que aconteceu com a Lê? - falou Clarisse, gemendo.

- Eu vi, que coisa horrível, né, Clarisse?

Abraçaram-se mais um pouco.

- Natinho, ninguém me entende.

- Não fala assim. Vamos lá para o seu quarto.

E Natinho a ajudou caminhar até o quarto. Pegou um pano com água e limpava os ferimentos de Clarisse.

- Natinho, quando eu me corto eu me esqueço que é impossível ter da vida calma e força. Não é fácil ter que ser forte a todo e a cada amanhecer.

- Mas, Clarisse, você tem que lutar. Todos nós temos nossos problemas, mas precisamos levantar a cabeça e procurar aprender alguma coisa e melhorar nossa vida. Não adianta nada se entregar.

- Ah, Natinho, eu gostaria de ter a sua força.

Natinho colocou um cd no som portátil de Clarisse, penteou os seus cabelos, vestiu uma roupa mais animada. Clarisse até sorriu.

- Clarisse, eu estava pensando. De quando em quando é o novo tratamento?

- Ah, esse tratamento não está adiantando nada.

- Então, Clarisse, eu vou procurar um pessoal para te ajudar. Você quer?

O silêncio imperou.

- Clarisse, se você não quiser eu não vou fazer nada. Depende só de você.

- Tudo bem, Natinho, eu aceito a sua ajuda. Só não sei como vamos poder pagar.

- Deixa isso comigo. Tenho uns amigos que terão prazer em nos ajudar. Pode ficar tranqüila. O que eu preciso é da sua palavra em querer melhorar.

- Natinho, você é um anjo. Quero te ver mais vezes. Você volta amanhã?

- Prometo que sim.

Quando Natinho saiu, Clarisse estava trancada em seu quarto, com seus discos e livros, mas já tinha se alimentado e estava melhor. Nem parecia a mesma Clarisse que ele encontrou.

Natinho agradeceu a Deus por aquela mudança.

19 novembro 2008

LIBERDADE

FAROESTE CABOCLO - O LIVRO - CAPÍTULO 10

CAPÍTULO 10 - O COMEÇO DO TRÁFICO DE DROGAS

João se envolvia de corpo e alma no tráfico. Gostava de vender drogas, adorava ir para as ruas, sentir que as pessoas o respeitavam, tratavam-no como uma pessoa poderosa.

E João não hesitava em tomar providências violentas para seguir o seu rumo. O dinheiro aumentava em sua conta dia a dia. Nunca havia ganhado tanto.

João e Pablo também continuavam a usar drogas continuamente.

João, pessoalmente, disputava os pontos de venda de drogas. A primeira vítima, um traficante do bairro, foi emocionalmente chocante.

João e dois comparsas foram diretamente à boca de fumo, onde estava Adriano. Eles já o conheciam, pois costumavam comprar drogas em sua mão.

Adriano sorriu, achando que seria mais uma venda. João ainda não havia espalhado a sua fama. Estava fazendo pouco a pouco.

- E aí, mano, o que vai ser hoje? - perguntou Adriano.

João foi direto ao assunto. Puxou seu revólver e deu quatro tiros em Adriano. Os seus comparsas mataram outro cara que estava no local. Dois comparsas de Adriano, que também estavam no local ficaram estagnados. João impôs sua vitória e decretou que eles deveriam sair dali imediatamente.

A partir deste momento, João iniciou sua própria boca de fumo. O seu produto era puro. Sua maconha era ótima. A repercussão foi instantânea. O seu movimento subia gradativamente.

Daí para a conquista de outras bocas foi um pulo. Os seus comparsas iam aparecendo, pouco a pouco. Sempre existem aqueles que querem ficar ao lado de quem está por cima.

Rapidamente, João acabou com os piores traficantes da região. Outros traficantes menores não esperaram a visita da gangue do João, e fugiram para outras cidades.

O tráfico do Rio de Janeiro começou a investir na turma do João. Mandavam dinheiro, armas e droga pesada. João conseguia maconha de boa qualidade e enviava para o Rio.

Pablo fazia todo o serviço de contatos, continuava a conquista de novos agricultores, inclusive de outros estados, conseguiu contatos importantes com a Bolívia, país que conhecia bem.

Em pouco tempo, João e Pablo passaram a ser alvo de conversas em todas as rodas.

Os políticos falavam nos bastidores, do poder que eles conquistavam e ficavam receosos de tomarem ações que não fossem de acordo com a vontade de ambos.

A polícia era financiada pela gangue de João, e hesitavam em agir contra eles.

A alta sociedade, com seus vícios, convidava os dois para freqüentarem suas festas. Afinal, todos eram influenciados, direta ou indiretamente.

Muitos eram amigos verdadeiros, feitos pelo poder de convicção de João, que aonde chegava conquistava a todos. Nunca se preocupou com economia, e muito menos agora, que tinha muito dinheiro. Muitos dependentes de drogas o rodeavam e o adoravam.

O que João mais gostava em toda esta trajetória era poder freqüentar as festas de rock. Era um pessoal que o respeitava, o tratava dignamente como nunca haviam feito. Vestia uma roupa legal, quase sempre nova, comprada exclusivamente para aquela determinada festa, com bastante dinheiro no bolso, e belas mulheres o rodeavam.

Quase sempre dormia em bons hotéis, sempre muito bem acompanhado. Usava drogas puras, que faziam sua amizade crescer a cada dia, interessados nesse livre acesso.

Distribuía maconha e cocaína por muitos bairros da cidade. Era o novo dono do pedaço.

Pablo e João começaram a investir o dinheiro que ganhavam.

- João, estava pensando em montar uma central onde pudéssemos controlar todo nosso império. O que você acha? - perguntou Pablo.

- Concordo. Vamos comprar um prédio! - falou João.

- Um prédio, João? Calma! Eu acho que a gente deveria comprar um galpão, tipo estes que a gente vê nos filmes de cinema.

- Que nada, Pablo. Sabe o que eu gostaria? Eu gostaria de ser dono de um morro. Morro do João!!! Já pensou?

- Você tá voando, João. Aí já é demais!

- Eu sei, mas eu posso fazer uma coisa parecida. Eu vou construir um prédio, e vou chamar este prédio de Morro. E aí eu posso falar que sou dono do Morro. O Morro do João! O que você acha?

- Sei lá, João, vai chamar muito a atenção.

- Eu sei... Vamos ter que ter uma fachada... Nós faremos andares subterrâneos, para uso exclusivo do nosso tráfico. Nos andares normais nós alugaremos para o comércio, por aluguéis baixos, para que fiquem sempre alugados. E nos dois últimos andares eu quero o meu conforto. No penúltimo eu quero a melhor residência de Brasília e no último, eu quero tudo de melhor que um escritório possa ter. E vamos contratar os melhores empregados para nos ajudar. E agora? O que você acha?

- Puxa, João... É tentador!

- Tudo bem... Você fica com o andar abaixo do meu...

- Ah... Agora ficou perfeito...

E riram do poder que tinham.

Uma semana depois já tinham comprado um terreno, no centro da cidade. Seis meses depois o prédio já estava pronto. Com tantos pedreiros, ajudantes, etc., que fosse possível, fizeram o serviço mais rápido que o normal.

João, todos os dias, visitava a construção. Pablo ia de vez em quando.

Na inauguração foram todas as pessoas influentes da cidade. Eram políticos, empresários, comerciantes e toda a grã-finagem. Nunca se comeu nem bebeu tanto como naquela noite. E para os mais chegados tinha pó de sobremesa.

Na hora em que João e Pablo tiraram o pano para a inauguração do prédio, houve uma esfuziante salva de palmas. Na placa estava escrito: MORRO DA VITÓRIA

A princípio João queria colocar Morro do João, mas Pablo discordou. Ficaria muito pessoal. E se colocasse Morro do Pablo? Nessa dúvida, ficou combinado que colocariam Morro da Vitória.

João, para tudo que quisesse se referir ao prédio, falava Morro. "Eu vou lá no Morro. Eu vim do Morro. Vou dormir no Morro". Os seus amigos aprenderam a usar os termos. "Cheiravam a pura apenas no Morro do João".

A locação dos apartamentos foi rápida, e conforme haviam combinado, o preço da locação era abaixo do mercado. Rapidamente, o prédio se transformou num local onde procuravam todo tipo de serviço, bem como era ponto comercial, em alguns andares.

Ninguém desconfiava do entra e sai que ocorria nos três andares subterrâneos. Eram caminhões carregados chegando, eram carros carregados saindo. Homens e mulheres entravam e saiam, dos andares, que eram controlados.

Na verdade, o acesso aos andares do tráfico era restrito a um grupo de pessoas que trabalhavam para a recepção e distribuição da droga para a cidade. O poder de João estava no auge. Os carros saiam dali, carregados, e distribuíam nas bocas que estavam espalhadas pela cidade.

As autoridades sabiam o que estava acontecendo, mas como em todo lugar era inevitável o tráfico de drogas. E, como João tinha destruído ou expulso os outros traficantes da cidade, as autoridades até estavam satisfeitas em não ter tantos problemas quando se havia disputa por pontos de droga.

João ajudava constantemente a polícia, com doação de dinheiro e material para as delegacias. Até carro ele havia doado. E mantinha a sua turma especial de proteção dentro da polícia. Se caso houvesse a necessidade de evacuação das drogas do prédio, João seria avisado, através de sua turma de proteção, infiltrada na polícia. Eles faziam rapidamente uma limpeza no prédio, caso houvesse algum tipo de fiscalização.

Essa fiscalização ocorria, periodicamente, devido aos diversos boatos que surgiam sobre o tráfico de drogas realizado por João e Pablo. Vinha do alto comando da polícia, mas nunca puderam comprovar nada.

João ficava durante o dia no escritório, localizado no décimo terceiro andar. Durante a construção, João resolveu inverter e construiu no último andar a sua residência. Tinha até piscina. Ficou o máximo. João colocou em casa tudo o que era possível em conforto, inclusive, uma mini academia, salão de jogos, e uma sala que ele chamava de boate, com som, luzes, que era onde ele trazia suas garotas. Dali, para o seu quarto era um pulo. Na boate, João aprontava. Sempre tinha cocaína espalhada em uma mesa, em um cantinho. Suas visitas podiam visitar a mesa, sempre que quisessem. E, quando acabasse o pó, sempre havia um empregado pronto a renovar.

No escritório, havia a sala de João e a de Pablo. Enquanto Pablo tratava de todo o processo de comunicação com outros estados e países, João era encarregado do recrutamento.

E foi num desses processos que ele conheceu o seu melhor amigo, nesta etapa de sua vida.

No dia em que se conheceram, João estava muito feliz. Eram três horas da tarde quando Natinho entrou em seu escritório.

- Boa tarde, Seu João! - falou Natinho.

João ficou chateado. João estava acostumado com puxa-saco, mas odiava esse negócio. Só porque tinha dinheiro e poder não precisava de bajulação. João era um negro, um metro e noventa de altura, forte e independente. Achava estranho aquele respeito que conquistou.

- Ei, menino branco. O que é que você faz aqui, subindo o Morro? Quer se divertir? - perguntou João.

Natinho percebeu que não seria fácil o que ele pretendia.

- Seu João...

- Olha, pivete, eu não te conheço, mas não gostei de você. Que negócio é esse de me chamar de "Seu"?

Natinho ficou calado. Estava humilhado demais para responder alguma coisa.

João percebeu o que tinha feito, e rapidamente mudou seu tom de voz.

- O que foi, rapaz? Fala aí... - perguntou João.

- Olha, João, eu estou precisando de emprego. Sei que você é dono deste prédio e resolvi vir direto a você para pedir emprego. Pode ser qualquer coisa. Até vender drogas na rua.

- Que negócio de drogas é este? Está maluco, cara. Eu não mexo com isso, não!

Natinho respirou fundo e falou:

- João, a sua fama corre por toda a cidade. Todo mundo sabe que você é o Rei. Sem você esta cidade estaria parada. Sem você a nossa cidade seria uma merda.

João ficou satisfeito com o status. De repente, voltou ao chão...

- Que é isso, moleque?

- João, eu quero vender drogas. Eu uso desde os quinze anos, mas agora estou querendo vender. E não quero ser vendedorzinho pé-de-chinelo. Quero ser forte. Com o seu apoio quero me tornar no seu melhor homem.

João estava surpreso com aquele rapaz que entrou tímido, humilhado, e agora estava demonstrando uma personalidade formidável.

- Qual o seu nome? - perguntou João.

- Natinho.

- Seu nome, mesmo? Qual é?

- Eu deixei de ter nome há algum tempo.

- Eu entendo. Já passei por isso na minha vida.

Olhou para aquele rapaz, tentando se firmar em alguma coisa e resolveu:

- Olha, rapaz - você está contratado. Você será o meu melhor vendedor. Mas, para isso, você precisa provar que é o melhor vendedor. Você é capaz disso?

- Sou. - respondeu, Natinho, secamente.

- Então, daqui a pouco, às seis horas, nós vamos fazer um teste. Dá um tempo lá em casa. Sobe e fica lá. Na hora certa eu lhe chamo.

Natinho ficou impressionado com João. Tomava as decisões imediatamente, sem medo. Mandou Natinho para sua casa, sem nem mesmo conhecê-lo. O que aquilo representaria? Sabia que era um teste.

Na sala de João tinham diversos objetos de valor. Esculturas, enfeites, relógios, e outros artefatos. Além de que, em um cantinho estava um pouco de maconha e outro de cocaína.

Natinho sabia que era um teste. E ele iria passar neste teste.

Na verdade, Natinho tinha uma dependência em cocaína incontrolável. Já havia tido diversos problemas. Mas, nesse momento, estava preocupado em mudar sua vida. Falava em abandonar drogas, mudar amigos, conseguir um bom trabalho. Afinal, estava pensando em ter um futuro.

João, por sua parte, fazia este tipo de teste com todos os seus possíveis funcionários. Muitos haviam passado e muitos reprovados. É claro que era um teste injusto com os diversos viciados que entravam naquela sala, loucos de vontade de usar alguma droga.

Mas, João, quando viu Natinho, sabia que não precisava fazer o teste. Sabia que Natinho era o seu novo braço-direito. Sabia, que, se isso não fosse acontecer agora, aconteceria no futuro.

Era como se uma força muito forte o estivesse avisando para ajudá-lo, naquele momento, que em outro momento teria o retorno.

Às seis horas João apareceu na sala. Faziam duas horas que Natinho estava lá. A única coisa que ele fez foi ligar o som. Sintonizou uma rádio que só tocava MPB.

- Que som legal. Você curte esse som? - perguntou João.

- Adoro! Pena que o cara morreu... Senão, hoje em dia estaria no topo do mundo. O cara era mágico...

- Se era!!! O cara era o máximo. Ainda hoje, depois de tanto tempo, está fazendo sucesso.

- Eu fico pensando - disse Natinho. - como Deus faz as coisas. Será que estava na hora do cara pegar aquela doença e morrer? Por quê não me levou no lugar dele?

- O que é isso, cara? Não entendo sobre esses negócios de Deus, mas acho que o que tem que acontecer, acontece. Acho que não tem esse negócio de a gente correr de acontecer as coisas. Acho que o dia que vou morrer, já está escrito em algum lugar.

Natinho observava. Sabia que João tinha razão. O dia da sua morte estava escrito. Quem mexia com drogas assinava a sua morte. Mais cedo ou mais tarde. O dia de Natinho também estava escrito.

- Que é isso, João? Parece que viu anjos? Está prevendo o futuro?

João riu da brincadeira. Não estava acostumado a rir, assim. Sempre era levado muito a sério. Quem o rodeava sabia do seu poder. Sabia das mortes que carregava nas costas.

- Vamos descer, Natinho. Quero te levar em um lugar. Se der certo, você passa a trabalhar lá.

E desceram. Foram para o carro de João, que dirigiu até um determinado bairro.

- Natinho, aqui você tem um material ruim. É cocaína misturada com uns negócios aí. Dá para sentir um pouco do efeito, mas se o cara for macaco velho, você vai perder seu dinheiro. E levar umas porradas por vender material falso. Toma aí.

Natinho pegou o papelote na mão, olhou bem para o papel e resolveu:

- Vou passar!

- Quero ver! - respondeu João.

Saiu do carro, viu um cara que parecia viciado vindo do outro lado da rua. Aquela esquina era um ponto de venda de cocaína, e era fácil identificar os possíveis fregueses.

- Volta aqui... - gritou João, pensando em dar algum conselho para facilitar a venda.

- Vem você! - gritou Natinho, demonstrando sua forte personalidade.

Encontrou com o cara. João os viu conversando. Natinho enfiou a mão no bolso e entregou o papelote ao rapaz. Este entrou no bar em frente, foi ao banheiro. Demorou um pouco. Saiu, sorrindo, e entregou algumas notas para o Natinho, que veio para o carro de João.

- Como foi? - perguntou João.

- Nem sentiu que era falso...

- Então entra aí e vamos comemorar... - brincou João, festejando o início de uma nova amizade.

Foram para a casa de João. Já era noite. Do celular, João deu ordens aos seus funcionários. Queria encontrar três amigos e mandou localizarem-nos. Pediu que os convocassem para uma reunião em sua casa, dentro de meia hora. E pediu que convidasse algumas garotas, para divertirem-se, após a reunião.

João chegou ao prédio, e quando foi entrar em casa, percebeu que tinha esquecido as chaves.

- Agora que temos a casa é a chave que sempre esqueço.

Mas, com uma ligação no celular tudo foi resolvido.

A partir deste dia Natinho passou a freqüentar a casa de João. Conseguiu um ponto de venda de cocaína perto de onde realizou aquela façanha, mas sempre era chamado à casa de João, que reconheceu em Natinho uma pessoa amiga e companheira, diferente dos outros amigos, que só pensavam no dinheiro e na droga.

14 novembro 2008

PREOCUPAÇÕES INÚTEIS

Não fiz nada no trabalho
Enrolei o dia inteiro
E dizem que vão me punir...

Por quê?
Eu não fiz nada!
Como punir por nada?

O documento sumiu
Ninguém sabe, ninguém viu
E querem que eu seja o responsável...

Por quê?
Se não existe documento
Não existe nada
E como ser responsável por nada?

Sou preguiçoso, sim.
Durmo o dia inteiro
Não faço nada...

Nada, não, nada, mesmo...

Acho que fui peixe em outra encarnação
O que peixe faz?
Nada...

Autor: Jorge Leite de Siqueira

RETAS CURVAS

Tem certos dias que a tristeza aparece sem explicações.
Instala-se em vazios da alma,
Aloja-se em nosso íntimo...

- Um anjo triste - diria Renato Russo...

E o azul vira cinza
E as retas, curvas...

Todos os copos pela metade estão quase vazios...

Não queria sentir isso, mas sinto.
Queria não sentir nada,
Nem ódio, nem tristeza,
Nem amor, nem alegria...

E se sentisse, que gritasse, que brigasse...

Que agisse como um louco
Dando murros em paredes
Chutes em portas
E fizesse caretas
Assustando as pessoas...

Não quero mais falar nisso.
Não consigo pensar
Não vou mais escrever...

Quero dormir...

Quem sabe os dias voam
E um novo tempo chegue
Em um novo ano
Numa nova vida...

E o anjo sorriu, mesmo triste...

Autor: Jorge Leite de Siqueira

13 novembro 2008

SILVESTER

ONDE ESTARÁ VOCÊ

Onde estarás agora?
Em quem estarás pensando?
Terás uma flor nos cabelos?
Estarás com um sorriso no rosto?

Teus pés estarão nas areias da praia?
Tuas mãos brincarão com um copo?
Estarás num restaurante à beira mar?

Como estarás agora?
Estarás feliz?
Estarás falante?
Estarás extrovertida?

Estarás triste?
Estarás retraída?
Estarás pensativa?
Estarás depressiva?

Estarás cansada?

Onde?
Como?
Por quê?

As perguntas invadem meu cérebro...

Em minha utopia
Viajo em pensamentos confusos
Tentando entender a tua ausência...

Para onde teus olhos olham?
Para o horizonte?
Para uma casa?
Para um monitor?
Para outros olhos?

O que sai de tua boca?
Palavras confusas?
Cânticos sagrados?
Palavras de amor?
Ruídos da sonolência?

O que teus ouvidos escutam?
Confissões de amor?
Canções bregas de José Augusto?
As ondas rebentando na praia?
O silêncio dos anjos?

São tantas as perguntas...

Sinto a tua falta.
Sinto muito a tua falta...

Espero o dia em que só terei respostas...

Autor: Jorge Leite de Siqueira

12 novembro 2008

COMO UM FILME

A minha vida é um filme
Tantos personagens e locações
Tantos encontros e desencontros
Tantos desdobramentos...

Às vezes é uma tragédia
As coisas acontecem
Não seguem roteiro...

Às vezes vira comédia,
Em outras, terror.
Sofrimentos passam pelos meus dias
Trazem crescimento
E derrubam na mesma proporção...

Sexo, drogas e rock and roll
Misturam-se em noites mal dormidas
Mas, bem vividas...

Trabalho e romance,
Aventura e balada,
Compõem o meu dia-a-dia
Trocando figurinos e maquiagem...

Rotina...

Acendo o cigarro,
Pego um uísque,
Dão close-up.
Captam minhas preferências...

Marketing...

Todo dia é dia de filmagem
Estou sempre cansado
A correria é enorme...

Vou contando os dias
Esperando a estréia.
Com quem ficarei no final?
Como será o final?
Como morrerei no final?

Afinal, todos os finais são iguais...

Autor: Jorge Leite de Siqueira

BEIJA-FLOR

Vôo!
Paro, volto, sigo, paro de novo.
Impossível para outros pássaros
Permitido para mim...

Procuro você nos jardins...

Vejo margaridas
Sinto o cheiro do crisântemo
Vejo a beleza das orquídeas
Mas não encontrei ainda quem eu queria...

Milhares, milhões,
Todas ao meu alcance de poeta
Mas nenhuma é a única...

Não quero todas
Quero a única, a última...

E vejo
No meio de tantas
Encontro quem eu procurava...

O seu brilho me atrai
Sua beleza me distrai
Mas a sua simplicidade é a perfeição que invade minha alma...

E vôo até você
Cortejo de longe
E me aproximo
Bem devagar
Para que o momento seja único...

Sinto seu cheiro
Saboreio o seu néctar
Sugo o teu mel...

E nunca mais precisei procurar outra...

Encontrei você
A única
A última...

Autor: Jorge Leite de Siqueira



10 novembro 2008

ESQUIZOFRENIA

A esquizofrenia é uma doença mental grave que se carateriza classicamente por uma coleção de sintomas, entre os quais avultam alterações do pensamento, alucinações (sobretudo auditivas), delírios e embotamento emocional com perda de contacto com a realidade, podendo causar um desfuncionamento social crônico.

É hoje encarada não como uma doença única mas sim como um grupo de patologias, atingindo todas as classes sociais e grupos humanos.

A sua prevalência atinge 1% da população mundial, manifestando-se habitualmente entre os 15 e os 25 anos, nos homens e nas mulheres, podendo igualmente ocorrer na infância ou na meia-idade.

Um exemplo de um esquizofrênico famoso é o matemático americano John Forbes Nash, que fez importantes contribuições na área da economia, biologia e teoria dos jogos.

DISCURSO DE LULA NO G-20

"Senhoras e senhores ministros das Finanças e presidentes de Bancos Centrais,

Senhoras e senhores membros das delegações,

Quero dar as boas-vindas a todos que comparecem a esta importante reunião que temos a honra de presidir.

A economia mundial atravessa seu momento mais grave em décadas. Medidas tomadas por governos impediram o pior, mas ainda há muito o que fazer. Persistem riscos e incertezas sobre o comportamento da economia, sobre o impacto da crise nos países em desenvolvimento, no comércio e nas finanças internacionais.

Uma coisa é, no entanto, evidente: a desordem que se instaurou nas finanças mundiais nos últimos anos ameaça o funcionamento da economia real. O preço a pagar por essa irresponsabilidade se pode medir de várias formas.

Para nós, o que importa é a ameaça de uma recessão generalizada e, na sua esteira, a perda de milhões e milhões de empregos, o aumento da pobreza e da exclusão. Não podemos permitir que o pânico que se instalou em muitos lugares atinja os setores produtivos. Cabe aos líderes mundiais, com serenidade e responsabilidade não nos deixarmos contaminar pelo medo.

Mas esta é uma crise global, e ela exige soluções globais. Este é o momento de formular propostas para uma mudança substantiva na arquitetura financeira mundial.

A crise nasceu nas economias avançadas. Ela é conseqüência da crença cega na capacidade de auto-regulação dos mercados e, em grande medida, na falta de controle sobre as atividades de agentes financeiros.

Por muitos anos especuladores tiveram lucros excessivos, investindo o dinheiro que não tinham em negócios mirabolantes. Todos estamos pagando por essa aventura. Esse sistema ruiu como um castelo de cartas e com ele veio abaixo a fé dogmática no princípio da não intervenção do Estado na economia.

Muitos dos que antes abominavam um maior papel do Estado na economia passaram a pedir desesperadamente sua ajuda.

Em meu discurso na abertura da Assembléia Geral da ONU, afirmei que era chegada a hora da política. Me associo, agora, aos que pensam ter chegada a hora da mudança.

Temos de trazer para a esfera pública decisões antes tomadas por supostos "especialistas", mas que só serviam interesses privados. É amplamente reconhecido que o G-7 sozinho não tem mais condições de conduzir os assuntos econômicos do mundo. A contribuição dos países emergentes é também essencial.

Precisamos de uma nova governança, mais aberta e participativa. O Brasil está pronto a assumir sua responsabilidade. Esta não é a hora de nacionalismos estreitos, de soluções individuais. É hora de um pacto entre governos para a criação de uma nova arquitetura financeira mundial, capaz de promover segurança e desenvolvimento em bases eqüitativas para todos.

Essas reformas devem ser norteadas pelos seguintes princípios:

Representatividade e legitimidade: As instituições financeiras globais devem se adequar à nova realidade econômica. Devem abrir-se à maior participação dos países emergentes e em desenvolvimento;

Ação coletiva: Situações de risco e custos compartilhados exigem respostas coletivas, tanto para a elaboração de soluções, quanto para a implementação de políticas nacionais coordenadas.

Boa governança nos mercados domésticos: A importância do crédito, os crescentes riscos e complexidade dos mercados financeiros, impõem o aperfeiçoamento dos mecanismos de regulação, supervisão, governança corporativa e de avaliação de riscos. Nestas atividades, o Estado deve buscar o equilíbrio entre a eficiência dos mercados financeiros, a estabilidade de todos os mercados e a promoção do desenvolvimento econômico.

Responsabilidade: As políticas de cada país não podem transferir riscos e custos a outros países. Cada país deve assumir suas responsabilidades. Nacionalmente, setores cujas políticas expõem a sociedade a riscos desproporcionais devem contribuir, inclusive financeiramente, para a solução das crises e para o retorno à estabilidade.

Transparência: Os agentes financeiros privados devem observar regras internas de governança corporativa e de transparência de informações relevantes ao mercado e à sociedade, em especial aquelas relacionadas a riscos e ativos.

Prevenção: As políticas nacionais e as instituições financeiras internacionais devem incorporar o sentido de prevenção de crises financeiras em suas políticas e mecanismos de supervisão e acompanhamento dos mercados. Nesse contexto, o G-20 tem muito a contribuir. É um foro de diálogo representativo que congrega países ricos e emergentes. A superação da atual crise passará pela cooperação desses dois grupos de nações, ouvindo o conjunto da comunidade mundial.

Afinal, se a riqueza ainda se concentra nos chamados países desenvolvidos, o crescimento econômico está sendo mais robusto nas economias emergentes e em desenvolvimento. O próprio Fundo Monetário Internacional estima que, nos últimos anos, os países emergentes responderam por 75% do crescimento da economia mundial. Essa tendência se manterá em 2009.

Senhoras e senhores,

Nenhum país está a salvo da crise financeira. Todos estão sendo contagiados pelos problemas originados em países avançados. O colapso da confiança nos mercados financeiros dos países desenvolvidos gerou escassez de crédito para o resto do mundo. A crise fez os bancos dos Estados Unidos e da Europa pararem de emprestar.

Para os menos capitalizados, a falta de financiamento externo poderá levar a problemas de balanço de pagamentos. Mesmo para os países mais preparados, como o Brasil, os empréstimos ficaram mais caros. Fundos de investimento estrangeiros estão sacando suas aplicações no mercado acionário dos países emergentes para cobrir os prejuízos que tiveram nos mercados avançados. Essa perda de recursos afeta balanços de pagamentos e dificulta o financiamento das empresas.

Os países desenvolvidos e instituições como o Fundo Monetário Internacional devem adotar medidas para restaurar a liquidez nos mercados internacionais.

Um dos efeitos mais preocupantes da crise ocorre no comércio. Com a já anunciada recessão, os países ricos vão reduzir suas importações, o que afetará a balança comercial dos países pobres. Essa redução na corrente de comércio mundial não interessa a ninguém.

O Brasil acredita que os países devem evitar a tentação de utilizar o protecionismo financeiro e comercial como artifício para superar a crise.

As lições da crise de 1929 devem servir de alerta para todos. Naquela ocasião, medidas unilaterais apenas prolongaram a depressão econômica e alimentaram a desconfiança. Ao contrário, é hora de uma ação coordenada. Mas o exemplo deve partir dos países ricos. É deles que se espera a adoção das principais medidas nesse sentido.

No dia 27 de outubro, reunimos no Brasil Chanceleres, Ministros da Fazenda e Presidentes de Bancos Centrais do Mercosul e dos países associados - na prática, toda a América do Sul. Chegamos à conclusão de que é preciso mais integração, mais comércio, menos distorções e menos protecionismo.

Entendemos que este é o momento para o impulso final das negociações da Rodada Doha. A maior abertura do comércio mundial é um excelente antídoto contra a crise. Uma das melhores medidas contra-cíclicas que poderemos tomar. A conclusão da Rodada deixou de ser uma oportunidade e passou a ser uma necessidade. Já há um bom conjunto de propostas sobre a mesa. Temos de resolver uns poucos problemas. Temos de enfrentá-los com grandeza. Os países desenvolvidos não devem, neste momento, aumentar as exigências sobre os países em desenvolvimento.

Senhoras e senhores,

Esta crise não colhe o Brasil desprevenido. Nossos fundamentos econômicos são consistentes. Meu governo e a sociedade fizemos sacrifícios e agora começamos a colher os resultados de nosso trabalho.

Em 2007, nosso PIB cresceu 5,4% e esperamos que cresça 5% este ano. Esse crescimento está sendo feito com justiça social. Nos últimos anos, tiramos 9 milhões da miséria e outras 20 milhões se incorporaram aos contingentes da classe média no Brasil. Ampliou-se nosso mercado interno, o que nos protege em muito contra a turbulência internacional. Diversificamos nossos mercados de exportação.

O aprofundamento da integração regional e o aumento do comércio com outros países em desenvolvimento tiveram, e continuarão a ter, papel fundamental. A inflação permanece em níveis baixos. As contas públicas estão em ordem. O Brasil vem mantendo superávit primário em torno de 4% desde 2004 e nossa dívida pública hoje está na casa dos 37% do PIB, e continua a cair.

Desde 2007, o Brasil passou de devedor a credor nominal no mercado internacional. Nossas reservas internacionais somam mais de US$ 200 bilhões, um aumento de US$ 143 bilhões desde março de 2006.

Este cenário positivo nos permite navegar pela crise com responsabilidade e confiança. Mas estamos atentos. Não estamos paralisados. O governo não permitirá que nosso crescimento seja comprometido. Manteremos todas as obras de infra-estrutura de nosso Plano de Aceleração do Crescimento.

O Ministério da Fazenda e o Banco Central do Brasil estão tomando as medidas necessárias para aumentar o financiamento interno e facilitar o crédito ao comércio exterior. Estamos assegurando que nosso sistema bancário continue a apresentar níveis adequados de liquidez.

Senhoras e senhores,

Esta reunião tem como tarefa iniciar o desenho de uma nova arquitetura financeira mundial. Ela prepara o encontro de Washington, no próximo sábado, no qual procuraremos avançar mais no diagnóstico e na formulação de alternativas globais e de outras reuniões que se seguirão. Para logramos verdadeira soluções precisamos realizar um esforço concertado, vencendo a tentação de tomar medidas unilaterais.

Enfatizo o que disse antes. Precisamos aumentar a participação dos países em desenvolvimento nos mecanismos decisórios da economia mundial. Devemos revisar o papel dos organismos existentes ou criar novos, de forma a fortalecer a supervisão e a regulação dos mercados financeiros.

É imperioso aumentar a transparência com novos mecanismos universais de revisão de políticas domésticas para os mercados financeiros. Afinal, é a vida de seres humanos que está em jogo!

As crises são também momentos em que a história abre grandes oportunidades para as verdadeiras mudanças. Nelas se evidenciam não só os erros do passado, mas as promessas do futuro.

Bilhões de seres humanos - sobretudo os mais vulneráveis - esperam que estejamos à altura dos desafios que a realidade nos colocou por diante. Não podemos, não devemos e não temos o direito de falhar.

Muito obrigado e bom trabalho para todos vocês."

09 novembro 2008

FAROESTE CABOCLO - O LIVRO - CAPÍTULO 09

CAPÍTULO 9 - O COMEÇO DA PLANTAÇÃO

A vida de João, em Brasília, começou como em qualquer lugar. Preso em uma carpintaria, durante todo o dia, e à noite estava tão cansado que só pensava em deitar, assistir televisão e dormir.

Os seus primeiros dias foram assim, até que recebeu o primeiro pagamento. Com dinheiro no bolso as coisas começaram a acontecer.

Fausto pagava a João o equivalente a outro funcionário aprendiz, que já trabalhava há dois meses na carpintaria. Nos serviços externos, quando precisavam de algum ajudante, os outros funcionários revezavam entre João e o outro rapaz. Quando um ia, o outro ficava para ajudar no prédio da carpintaria.

Mas, Fausto ajudava João na alimentação e na estadia, não cobrando de João, nada por isso. Como havia prometido a Seu Fernando.

A princípio, João era uma pessoa meio complicada, não tão asseada, deixando de cuidar de seu quartinho como deveria. Não varria, não arrumava suas roupas, e deixava restos de lanches pelos cantos do quarto. Após algumas broncas ele foi se conscientizando de que precisava ir melhorando.

Foi se organizando. E também, foi aumentando sua amizade com os outros funcionários. Com o dinheiro no bolso começou a dar suas voltas, sempre acompanhado pelos amigos da carpintaria.

Havia, ali perto, um barzinho que o grupo gostava de tomar uma cervejinha. Era um lugar pequeno, mas bem arrumadinho. Tinha umas cervejas bem geladas e servia algumas porções de comida.

Sempre o grupo ia para lá, nos finais das tardes, após o trabalho. João, a princípio era meio tímido, mas com o tempo foi se soltando e já começava a beber mais do que era acostumado.

Nunca havia ficado bêbado, mas sempre bebia bastante. Dentre seus amigos, havia também alguns que eram mais malucos que outros. O Milton, por exemplo, bebia e usava drogas. Já havia fumado maconha junto com João. O Tiago, também. Eram os dois mais loucos de todos, e foi justamente com eles que João fez maior amizade.

João estava maravilhado com o lugar e estava tão empolgado com a sua evolução que não percebia que estava saindo da linha. Comia e dormia de graça na casa de Fausto e não teve trabalho em conseguir emprego. Foi tudo muito fácil e ele não estava acostumado. Achava que a sua vida seria assim, dali para frente.

Já havia passado alguns meses que João estava em Brasília e agora ele já saía mais com Milton e Tiago, para lugares mais distantes. O uso da maconha era essencial para a boa amizade.

Compravam o material de um traficante daquele bairro. Não era um material de boa qualidade, mas era o que eles podiam conseguir.

Nas sextas-feiras eles iam para a Boate Sonho Azul, que ficava mais no centro. Lá, bebiam e namoravam à vontade. Ficaram conhecidos de todas as garotas pelo modo de não ter miséria; gastavam muito. Todo o salário de João era gasto com esse tipo de coisa.

As moças, entre si, disputavam para ver quem dormiria com João. Era um negro alto e forte. Esbanjador, pensava em agradar os seus amigos, pagando rodadas de bebidas para todos.

Na Boate, era bem conhecido dos freqüentadores. E, a cada dia, conhecia mais gente. Primeiro, João passou a freqüentar a Boate acompanhado de Tiago e Milton, mas, depois, passou a dar desculpas para ir mais vezes à Boate. Bebia bastante e conhecia pessoas diferentes.

Determinado dia, João usou cocaína. Foi a sua primeira vez.

Estava sentado quando chegou o Pablo. Ele não o conhecia, ainda, mas Pablo, um rapaz de uns vinte anos, estava começando sua vida de traficante.

- Olá... Tudo bien? - falou Pablo, com uma mistura de sotaque, que ele usava nos primeiros encontros, com a intenção de impressionar.

- Oi... Quer um copo? - respondeu João.

João ainda nem o conhecia, mas já oferecia bebida. Era isso que o diferenciava e fazia amizades. Nem sempre eram amizades boas, mas, eram as amizades que existiam naquele ambiente.

- Eu sou Pablo. Qual é o seu nombre?

- João. João de Santo Cristo. Pablo? Que nome diferente.

- Sou descendente de peruanos. Minha avó morava na Bolívia, até vir para o Brasil. Você é de onde, João?

- Da Bahia. Tem um ano que moro aqui, cara.

- Trabalha no quê? - perguntou o Pablo.

- Trabalho numa carpintaria, sou carpinteiro. E você?

Pablo parou de falar. Fez suspense. Olhou para um lado, olhou para o outro, como nos filmes. Pigarreou e finalmente disse:

- Estou montando um esquema novo aí. É um lance perigoso, pesado...

João se empolgou. Pablo havia tocado em seu ponto fraco.

- E o que é? - falou, abaixando o tom da voz.

- É um lance que estou começando. Tem um material bom para fumar, você entende?

- Ah... Claro... E como é que é?

- Poxa, cara, comecei a pouco tempo, estou engatinhando. Estou arrumando uns fregueses... Você é chegado? Na erva?

- De vez em quando. Não quero me viciar...

- Ah, deixa disso... Você sabe que na maconha ninguém vicia... Agora, no pó, cara, é foda! Passei por uma fase barra pesada. Já escapei. Hoje em dia eu só uso por diversão...

- E você consegue usar sem viciar? - perguntou João.

- Eu consegui, João. Consegui. Foi difícil, mas hoje sou eu quem manda. Eu uso de vez em quando porque eu quero. Mas, se eu quiser parar, eu paro a qualquer momento.

João ficou observando aquele cara que conseguia dominar a droga. Ele já havia usado maconha, diversas vezes, bebia constantemente, mas nunca usara algo mais forte.

- João - falou Pablo. - Hoje eu não te prometo, mas, sexta-feira, se você quiser, consigo um papel para gente. Dá para voar legal...

- Eu não sei, Pablo, estou morrendo de vontade, mas não sei, mesmo, se eu devo...

- João, você não sabe o que é voar, até que você use isso.

João ficou com vontade de experimentar. Não sabia o que era "voar", como falou Pablo.

- Pablo, qual é o efeito? Eu não vou viciar?

- É a melhor coisa da vida. Você cria forças não sei de onde. Você voa... João, você já voou?

- Com drogas, bebidas?

- Você sabe o que eu estou falando, João...

- Olha, Pablo, na minha despedida de Boa Vista teve um lance incrível. Naquela noite a gente estava bebendo para caramba, até que um cara apareceu com um baseado. Nós fumamos, bebemos. Começamos às dez da noite e viramos a noite, bebendo. Voamos alto, depois das duas, mas as cervejas acabaram, e os cigarros também. O pai de um amigo tinha um bar e nós fomos para lá, num lugar mais escondido. Lá rolou de tudo. Acho que foi a noite mais louca da minha vida.

- Então, João, depois que você conhecer o pó, você vai saber o que é voar, mesmo...

E combinaram que iriam se encontrar na sexta-feira.

João ficou ansioso, pediu até um vale no emprego, pronto para ter uma noite excepcional.

Chegou na Boate e Pablo já estava lá. Chamou João no canto e conversaram:

- João, consegui. Comprei com meu dinheiro, não vai precisar pagar. Depois você descola umas cervejas, falou? Vamos lá para o banheiro...

Foram para o banheiro. Em um dos compartimentos, em cima do vaso sanitário, Pablo ensinou João a usar.

Quando João voltou para a Boate, não sabia onde estava; se andava ou se voava, se falava ou se sorria. Estava completamente alterado.

Sentia-se o máximo.

Pablo estava satisfeito. Sabia que não havia mentido para João. A primeira vez é extraordinária.

Daí para João passar a usar mais e mais foi um pulo. Ele se viciou e era com muita ansiedade que esperava os encontros com Pablo.

Começou o sofrimento. João achava que trabalhava demais. Era o dia todo no batente e o que ganhava não dava para manter seus vícios. Sentia raiva em trabalhar até a morte e não encontrar melhores empregos. Mas, ele não se perguntava por que não procurava um novo emprego.

No tempo ocioso que ele tinha, ele simplesmente se entregava à bebida e à droga.

O tempo passava e ele começou a achar que Fausto e Isabel o exploravam, pagando mal e não davam chance para ele crescer. João foi se aborrecendo e começou a discutir com Fausto, por qualquer motivo. Raramente via-os após o trabalho. Era o tempo suficiente para a alimentação e ia para rua, ia pros bares, ia para boate.

Raras foram as vezes que ele conversava amigavelmente com Fausto e Isabel. Também raras foram as vezes que ele se lembrou do passado, da luta que teve para chegar ali, e porque tinha ido para lá.

Certo dia, em entrevista na televisão o ministro da economia explicava os seus atos tentando estabilizar a economia, a redução de juros, a contenção da inflação, mas João não queria aceitar nada. Achava que já estavam falando demais e ele precisava de mais dinheiro, de mais poder.

Uma sexta-feira estava conversando com Pablo, sobre a sua situação:

- Pois é, Pablo, o meu dinheiro não está dando para nada. Tenho que arranjar um emprego melhor, cara.

- Ou então, João, fazer alguma coisa para aumentar o que você ganha.

- O que você quer dizer com isso? - perguntou João.

- João, estou com um plano aí. Se der tudo certo, vou fazer uns negócios de umas plantações. Se você quiser, pode entrar na turma.

- Plantação de quê? Milho, feijão? Quando eu era pequeno o meu pai mexia com isso, mas eu não sei como é que é...

- João, deixa de ser bobo, é plantação de maconha...

Os olhos de João brilharam. -Plantar maconha. Onde? Dá para enriquecer?.

João conheceu os detalhes do plano de Pablo.

Era um grupo de cinco pessoas, inclusive Pablo, que tinham conseguido um patrocínio de uns traficantes de outro estado e estava tudo pronto para começar a plantação. Com João, seriam seis pessoas, com cotas iguais, mas com trabalho igual.

- E como nós vamos fazer? Onde nós vamos plantar?

- João, vamos ter um encontro da turma, amanhã, à tarde. Se você tiver a fim, pode vir.

João pensou no modo que estava vivendo. Não conseguia juntar dinheiro, não conseguia ter dinheiro para seus vícios. Fausto tinha trocado de carro, reformou a casa, e até tinha contratado mais gente para carpintaria. Estava crescendo bastante, mas, João, não tinha ganhado nada a mais com isso. Continuava o mesmo pobretão.

- Pablo, vamos começar a plantação...

E pediu mais uma cerveja.

A reunião aconteceu numa casa alugada, exclusivamente para estes encontros. Todos estavam nervosos, quase não se conheciam, mas todos estavam com o mesmo propósito de enriquecer urgentemente, nem que usassem os meios ilegais para isso.

- Vamos começar a falar do plano - falou Paulo, um moreno alto, que parecia muito experiente. - Em primeiro lugar, vamos nos conhecer.

E pediu que cada um falasse de sua vida, de suas honestidades e de seus problemas com a justiça. Ali ninguém era santo.

O que eles tinham em comum era a droga. Alguns usavam a mais tempo e outros a menos, mas, todos, já tinham usado.

Paulo, o líder, já havia sido preso algumas vezes por porte de droga, assalto e tinha cometido um assassinato, mas ele jurava que não havia sido ele.

Felipe era o menos experiente. Nunca teve grandes problemas com a justiça. Era viciado e estava começando a vender maconha.

Pablo era o amigo de João. Já usava drogas há algum tempo mas também nunca teve problemas com a justiça.

Michel já havia sido preso por porte de drogas. Depois que saiu da prisão cometeu três assassinatos e estava envolvido com o tráfico grande. Sentia, neste plano, a chance de começar alguma coisa por conta própria.

Roberto era criminoso. Usava drogas desde os doze anos e já não sabia contar os problemas com a justiça que tinha. Inclusive, era foragido e não podia andar por todos os lugares, como os outros.

João era usuário, mas já teve os problemas quando menor de idade. Ultimamente, não tinha tido nenhum problema sério.

Quanto mais João conversava com seus amigos, mais ele se animava com o plano. Era com Pablo que ele mais se identificava. Passava, agora, quase todo o tempo ao lado do amigo.

- Pablo, quem são esses caras do Rio de Janeiro que querem nos financiar?

- João, eu já tive um contato com eles na semana passada. É um pessoal barra pesada, mas é um pessoal legal. Eles sabem que nós vamos conseguir vender bastante por aqui e ainda sobrar para eles. Eles estão emprestando a grana, estão dando as sementes e até bancaram a gente para comprar carros, equipamentos, tudo o mais. É um pessoal forte!

- E não tem perigo deles se voltarem contra nós?

- Claro que tem, mas a gente deve andar desconfiado, não só com eles, mas com os outros caras, também. Você acha que a gente pode confiar no Paulo, no Lipe, e nos outros? Claro que não! E fique sabendo que eles também desconfiam da gente.

- Da gente? - perguntou João. - Eu não fiz nada.

- Mas eles não sabem o que você já fez no passado. E se você quisesse matar um deles agora, para ficar com maior parte do que os outros? Você sabe o que faz, mas eles não sabem nem o que você pensa!

- Pablo, então quer dizer que eles podem querer matar a gente para pegar uma parte maior?

- Claro, João, claro! Temos que ficar de olho!

Quando Pablo falou isso, já estava com um plano em sua mente. Sabia da facilidade de João em entrar em seu plano, mas sabia que não era a hora de falar sobre isto. Primeiro precisavam começar a plantação.

Foram Paulo, Felipe e Michel em um carro, João, Pablo e Roberto em outro e foram colocar o plano em ação. Visitaram agricultores da região e começaram a oferecer as vantagens em plantar maconha. Seriam financiados pelos rapazes, que já começaram a deixar algum dinheiro com os agricultores. O que eles deveriam fazer era plantar, cuidar da plantação até a colheita, e receber o dinheiro que o grupo iria dar. Tudo, desde semente, adubos, irrigação, mão-de-obra e todas as outras despesas sairia por conta dos rapazes. Não plantariam muita maconha em apenas um lugar para que não chamasse a atenção das autoridades.

A única coisa que os rapazes queriam era que os agricultores calassem a boca. Ninguém poderia ficar sabendo do que eles estavam tramando. E aí entravam com a chantagem. Se alguém ficasse sabendo, alguém morreria.

E deu certo. Pelo menos metade dos agricultores cederam à vantagem financeira que o grupo oferecia.

Algum tempo depois já tinham a primeira colheita. Nessa mesma época, houve um brutal assassinato de Paulo. Quando estava chegando em sua casa, uma dupla em uma motocicleta parou em sua frente e disparou diversos tiros. Paulo não teve a mínima chance.

Os outros rapazes, mesmo chocados com o que havia acontecido, continuaram com o plano. Ainda não haviam negociado, estavam apenas colhendo o material para beneficiamento.

A maconha estava quase boa. Estava quase na hora de colocar a droga no mercado.

Felipe, Roberto, Pablo e João estavam em um bar, conversando, comemorando o resultado das colheitas. Ainda não estavam vendendo, mas o pessoal do Rio de Janeiro estava satisfeito com os resultados até o momento.

Inclusive, Michel havia viajado para o Rio de Janeiro, a fim de combinar os detalhes de como iriam transferir a parte deles da mercadoria.

Já era mais de duas horas, quando se despediram. Felipe e Roberto seguiram em uma direção e Pablo e João foram na outra. Antes de Felipe e Roberto chegarem em casa, um carro com dois ocupantes, ambos com capuz na cabeça, parou na frente dos dois, freando bruscamente. Os dois saltaram do carro, armados e atiraram nos dois rapazes, sem dar chance para a defesa. Ambos morreram na hora.

Da mesma forma, Michel foi morto no Rio de Janeiro, sem ter aparentemente feito nada.

A polícia notificou o caso como uma queima de arquivo entre grupos traficantes rivais. João e Pablo estavam satisfeitos. Seriam os donos de todo o plano, com seu sucesso.

Na verdade, Pablo e João resolveram adiantar o que eles pensavam que os outros fariam. Fizeram um acordo com o pessoal do Rio de Janeiro e combinaram em exterminar os amigos da região. Da mesma forma pediram que fizesse o mesmo com o Michel. Com isso, ficaria mais fácil a divisão da mercadoria entre os dois e a turma do tráfico do Rio.

Em uma das visitas que os cariocas fizeram, de surpresa, pegaram João e Pablo totalmente voltados para o sucesso do plano, o que fez com que ficassem super satisfeitos. Era isso que eles esperavam. Dedicação total para que o plano desse certo.

Eram dois rapazes do Rio. Visitaram a última fazenda que iria entregar o produto. Já estava no ponto para a colheita. Os dois acompanharam João e Pablo nesta última visita.

Chegando na fazenda, encontraram o casalzinho de velhos, sorrindo, felizes com o sucesso da plantação.

- Oi, meus filhos, vocês vieram buscar o produto? - perguntou Seu Sílvio, já idoso, mais de cinqüenta anos, que pareciam mais de sessenta, acabado pela dureza da vida, como ele mesmo dizia.

- Viemos, Seu Sílvio. O caminhão vem daqui a pouco. Estes dois são nossos amigos, do Rio de Janeiro.

- Oi, prazer! Como vai?

- Tudo bem, Seu Sílvio. Com foi a plantação? Tudo certinho?

- Foi tudo bem... Só na primeira vez que não deu muito certo. Falhou demais...

- Na primeira vez? Qual foi a semente que você plantou?

- Os meninos trouxeram umas sementes mais escuras... Da primeira vez... Depois, trouxeram umas mais brancas... Aí, não falhou nada.

- Ah, Seu Sílvio, aquela semente era ruim mesmo. Todo mundo reclamou.

Os rapazes ficaram satisfeitos com a simplicidade do agricultor.

- O senhor ficou satisfeito com os rapazes, Seu Sílvio?

- Eles foram muito bons, mesmo! Me deram tudo o que eu precisava. Não faltou nada.

- Daqui uns dias vai ter mais, Seu Sílvio.

E chamaram a todos para dentro da casa, para acertar o pagamento. Seu Sílvio recebeu o dinheiro diretamente das mãos de Pablo e João. Ficou muito contente, afinal, nunca ganhou tanto com a agricultura.

Ficou tudo certo de como os rapazes iriam transferir o produto já beneficiado para o Rio e como ficaria a parte de Pablo e João.

João e Pablo começaram a distribuir o produto. Entraram com tudo no movimento de drogas em Brasília.

Pouco a pouco foram instalando o seu poder e criaram os seus pontos de drogas. Uniram-se a alguns traficantes mais velhos e, devagarzinho foram crescendo. Algum tempo depois começaram os problemas com os traficantes maiores, mas o pior já havia passado.

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