24 Abril 2010

POESIA 1727 – CICLO POÉTICO

Com uma pá recolho palavras do chão:
São as migalhas de Fernando Pessoa
Que deixou escapar ao vento;
São as sobras de Carlos Drummond de Andrade
Que jogou fora por falta de interesse;
São os restos que Vinícius de Moraes não quis,
Pois, tão apaixonado estava, deixou que escorregassem ao solo...

Palavras...

Encho com elas a minha caixa das fantasias
Junto aos versos que já havia recolhido anteontem
E faço poemas que se entrelaçam entre si
Misturando os meus ídolos a mim...

Todas as noites são assim:
Enquanto leio na varanda,
Palavras escapam e caem ao chão, sob a rede,
Acumulando-se aos montes das noites anteriores
Misturando amor e ódio, paixão e sedução...

Quando a insônia me ataca, às madrugadas,
Encho um copo de uísque, sento-me na cama,
Abro a caixa e vou brincar de combinar letras
Criar ordens nas palavras
E montar versos
Que nada mais são do que os farelos dos outros poetas
Que já disseram tudo
E só me deixaram suas sobras...

Sou grato a eles, a todos os poetas,
Que estimulam a minha imaginação
Emprestando-me suas musas
Com as quais sonho
E crio as mais loucas poesias...

Da mesma forma
Sei que também jogo palavras ao chão, ao lixo, ao mundo,
Para que alguém tropece nelas
E inicie um novo ciclo...

Um ciclo poético sem fim...

AUTOR: JORGE LEITE DE SIQUEIRA

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