09 março 2012

ÚLTIMAS POESIAS

2317 – EM CÂMERA LENTA

1

Ansioso
Tremendo
O poeta fecha os olhos...

E vê...

O rio corria em sua mente
A espuma subia
A água batia nas pedras...

Em câmera lenta...

Não havia céu
Não havia verde
Não havia vida...

Havia lentidão
Contando os dias
Calculando rugas...

O poeta perdia tempo...

2

De olhos fechados
O poeta vê a vida passar...

Em câmera lenta...

Ondas tocam a praia
Gaivotas voam
Pescadores jogam redes
Crianças correm
Mulheres sorriem
Homens bebem...

Em câmera lenta...

O sonho some
A vida acaba
A morte chega...

De olhos fechados...

Á lagrima cai
A tristeza aumenta
Coração pára...

Rapidamente...

3

O poeta está calmo.
Mudo, surdo,
Eternamente...

O poeta não pensa mais...

O poeta é levado
Seis alças
Um esquife...

Ninguém percebe
Mas o poeta sorri.
Finalmente...

E eternamente...

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2318 – É A VIDA, ENTÃO

Trop ( ê ) ço aqui
Trop ( é ) ço ali
Trup ( i ) co acolá
E a vida continua...

Aborreço aqui
Aborreço-me ali
A ( burr ) eço lá
E a vida segue...

Janeiro acabou
Fevereiro começou
Daqui a pouco é Natal.
E a vida?
Sigo...

É a vida, então.
E o que levo?
Nada.
A vida é que me leva...

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2319 - Ilusões

Tudo vai dar certo?
Que nada!
Tudo vai continuar como é
Como está
Como sempre foi...

Tudo vai ficar melhor?
Vai nada...

Torça para não piorar...

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2320 - Palavrões

Homologação.
Quem inventou esse nome?
Por que um nome tão estranho?
Averbação?
Aberração?
Assombração?
Cada palavrão...

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2321 – ACOSTUMADOS

Essa dor já nem me dói tanto
Eu já me acostumei.
Essa dor já nem me influencia mais
Eu já me acostumei.
Essa dor já nem me faz sofrer
Eu já me acostumei...

Me deixe em paz!
Acostume-se com meu pessimismo...

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2322 – FUGA

Saí correndo
Não olho para trás
Não sei o que me persegue
Mas sei que me persegue...

Quero fugir
Não sei para onde
Mas quero ir embora...

Correr é o que me resta...

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2323 – ESCREVI SEU NOME

Escrevi seu nome
Na parede
No banheiro...

O jota ficou legível
O resto, não...

Recortei quatro letras de revistas
Colei em um papel
Branco
Que peguei na impressora...

Comprei spray
Pichei muros
Escondido
Para não ser preso...

Escrevi a lápis
À caneta
Com pincel atômico...

Na folha
Na palmeira
Nas nuvens de meu computador...

Escrevi.
Só você não viu...

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2324 – FAMOSO

Ah, que bom não ser famoso:
Andar pelas ruas e ninguém notar
Falar e ninguém escutar
Erra e ninguém comentar...

Ah, que bom não ser conhecido:
Beijar mulheres feias e não sair no jornal
Engordar e não chamar a atenção
Estar de chinelos amarrados e ninguém perceber...

Ah, que bom não ser ninguém:
Não fugir
Não mentir
Não fingir...

Ah, que bom!
Não ser convidado para festas chatas
Não fazer festas chatas
Não saber que é chato...

Ah, que bom!
Que fique sempre assim...

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2325 – MEUS MEDOS

Eu tenho medo
Medo de gente
Medo de ordens
Medo de desculpas
Medo de gritos
Medo de falar e ninguém me ouvir...

Eu tenho medo de brigas
De ignorância
De covardia...

Tenho medo
Até de ter medo
De ter medo...

Ou de não ter mais medos...

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2326 – O GATO OCIOSO

Espreguiça-te, gato ocioso,
Neste mundo cão!
Espreguiça-te...

Invejo-te o sono
Invejo-te a preguiça
Invejo-te a vida...

Comida fácil
Casa, cama, carinho,
Só luta por sexo
O que o deixa exaurido...

Eu?
Fico cansado apenas em viver...

Invejo-te...

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2327 – ISSO NÃO É VIDA

O que vejo na esquina?
Um ônibus a me esperar
A morte a lhe guiar
A vida a me acompanhar...

Passageira também...

Leve-me logo!
Cansei daqui.
Talvez haja outra vida
A qual pode ser melhor...

Porque essa!
Essa!
Ah, essa não conta...

Isso não é vida...

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2328 – DEZ DE FEVEREIRO

Dez de fevereiro!
Aniversário dela.
Será o último que passaremos juntos?
Será o último antes de nos casarmos?
O que será que será?

Tantas dúvidas
Quantas perguntas
E ninguém me responde...

Tempo!
O mestre que nos mata
E que sabe as respostas...

Tempo!
Só nos conta na hora certa...

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2329 – Programação Normal

O arrepio
Desce pela coluna
Medo
Coragem
Abaixo-me
Espero o estrondo
Que nunca chega
Apesar dos gritos...

Há frio.
Não sinto nada
Só sono.
Nem sono
Pois durmo
Eternamente
Até ser lembrado
No jornal nacional
Como estatística...

Mais um assalto.
Mais uma morte.
Continua a violência...

E continua a programação normal...

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2330 – Grito no inferno

Ouço um grito!
Na desordem em que me encontro
Assusto-me
E me vejo no inferno
Apartando briga de anjos
Empurrando braços
Segurando armas...

Desordem no caos.
É ordem.
Ordem de silêncio
Que não fazem
E gritam
Ignorando até a chuva...

O silêncio, enfim, chega.
Traz a chuva.
Ou vice-versa.
Mortos? Feridos?
Todos
Inclusive eu
Que não saí daqui
De onde estou
Deitado no escuro do quarto...

Outro grito:
É minha mente.
Pedindo para parar...

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2331 – Louco, andarilho

Eu sou louco.
Eu penso na paz
No amor
Em coisas boas.
Eu sou louco.
Ainda acho possível vivermos em harmonia
Sem fingimento
Sem enganações...

Eu sou um louco.
Ninguém mais pensa assim...

Por isso quero a solidão
Quero ser ermitão
Quero ser andarilho...

Todos os andarilhos são loucos e gênios...

Eu sou louco.
Gênio?
Só quando tiver
Coragem
E acreditar mais em mim...

Sou um louco.
Andarilho?
Ainda não...

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2332 – CIDADE MARAVILHOSA

Acho que estou num circo
Num hospício
Na cidade maravilhosa
Em Pasárgada
Onde tenho amigos
E nem todos são virtuais.
Continuo sem amigos.
Tiro fotos
Nuas
Cruas
Fotos de fotos
Fotos de fatos
De Alice
No País das Maravilhas
Onde moro
Que é um circo
Ou um hospício
Uma cidade maravilhosa...

Dentro de mim
Meu mundo
Com enormes muros
E fortes canhões...

Onde ninguém entra...

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2333 – Maldição

Maldição!
Só pode ser maldição.
Não sou nada
Nada
Nunca
E sempre sou nada...

Só pode ser maldição...

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2334 – O CANSAÇO

Estou cansado.
Na verdade, vivo cansado.
É uma busca constante
Que me dói músculos e carnes
Que dilacera os poucos neurônios que me restam
Que massacra os poucos pensamentos positivos que ainda tenho.
Estou cansado.
Tento andar, seguir trilhas.
Não consigo.
O cansaço me joga ao chão
Me faz fazer planos de recomeços
Que sempre recomeçam
E nunca passam de planos.
Meus planos são ótimos.
Planos esotéricos de encontros espirituais
Planos metafóricos de amar e mar
Planos ilusórios de paz, amor, metades.
Estou cansado.
Até dos planos estou cansado.
Vivo zanzando pela vida
Nunca chego a lugar nenhum
Nem aprendo os sotaques e tudo acaba.
Estou cansado.
Sonhos. Sonhos. Sonhos.
Meus planos são sonhos
E vice-versa.
Estou cansado.
De sonhar também...

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2335 – SEDE

Bebi água
Tinha gosto de veneno.
Tonturas
Temores
Tristeza.
Vomitei palavras rotas
Feri
Rasguei o silêncio.
O que bebi
Não saiu de mim.
Nem entrou.
Moldou meus passos...

Bebo veneno
Tem gosto de água.
Vinagre
Ácida
Cachaça.
Tudo parece água.
Venci.
Meus passos não marcam o chão...

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2336 – MÁQUINA DEFEITUOSA

Máquina.
Sinto-me máquina
Mecânico
Automático
Automatizado
Robô...

Tudo igual
Sempre igual
Como um programa
Ordens
Uns e zeros
Sempre do mesmo jeito...

E as dores?
E os pensamentos?
Falta de óleo
É provável que os arquivos estão corrompidos...

Uma máquina defeituosa...

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2337 – VIDA ETERNA

Vida
Façamo-la eterna
Mágica
Colorida
Apimentada...

Vida
Fuga passageira da alma
Que pode ser divertida...

Maravilhosa?
Ridícula?
Mágica ou encantada?
Comum?
Só depende de você...

Não a tema!
É o segredo...

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2338 – ABERTA OU FECHADA

Cabeça
Aberta
De onde escapam idéias
Segredos e planos
Que batem asas
E se vão...

Asas!
Levem-me!
Ao mais longínquo sonho
O mais profundo infinito
Dentro de mim
Fechado
Na cabeça...

Todas as fantasias podem ser reais...

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2339 – PRAZER

O prazer
Em não ter prazer
Precisa acabar...

Minha obsessão
Infantil
Recorrente
Dia a dia...

Isso precisa terminar...

Prazer
Por prazer
Em olhar nos olhos
Invadindo
Verdadeiro
Mesmo solitário
Precisa me invadir...

E direis, enfim, que sou feliz.
Bem feliz...

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2340 – GARRANCHOS INVISÍV EIS

No fim
Enfim
Quando leio em folhas
O que acabo de escrever
Percebo que estou cego...

Só vejo garranchos...

Cego?
De olhos fechados
Não vejo nada.
Nem as folhas em branco
Onde escrevi
Todos os meus segredos
Com tinta invisível...

As folhas
Continuam virgens
E não sou mais cego...

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2341 – AMIGO É UMA COISA

Amigo,
Beba comigo!
Amigo,
Coma comigo!
Amigo,
Dance comigo!

Eu pago a conta...

Amigo,
Onde está você?
Amigo,
Onde você se escondeu?
Amigo,
Apareça!

Estou com fome
Com sede
Quero dançar
E não tenho dinheiro...

Gastei tudo contigo...

Amigo!
Onde está você?

AUTOR: JORGE LEITE DE SIQUEIRA

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