16 dezembro 2012

crônica: gargalhada no semáforo

parei no semáforo. almocei bem. restaurante barato. comida gostosa. pena que tenho que voltar ao trabalho. 
é a vida.
ao meu lado, um carro cinza. uma mulher me encara. ela é a motorista. uma lata vermelha em sua mão. cerveja. ao seu lado, um rapaz. um menino, talvez. doze anos? provavelmente. no banco traseiro outro menino. mais novo. dez? talvez menos.
eles sorriam. ela deu um gole. olhou para mim. olhei para ela. eu usava óculos escuros, mas ela sabia que eu a encarava. balancei a cabeça, negativamente. 
ela sorriu.
abriu o semáforo, ela acelerou antes de mim. soltou uma gargalhada. eu parei no posto para abastecer. demorei menos que cinco minutos.
no semáforo seguinte, confusão. uma batida. um acidente entre carros cinzas. nas ferragens eu pude ver a mulher sorridente. o air-bag salvou-lhe a vida. apenas um corte em seu rosto. sangrava bastante. as pernas estavam presas. esperavam a ambulância. o samu. os bombeiros. 
alguém.
ela não sorria mais. nem segurava a lata vermelha. mas, tenho certeza, em sua boca ainda daria para sentir o cheiro da cerveja. na dos meninos, não. havia sangue. não usavam cinto. nem tinham air-bag.
agora nem vida eles têm mais. 
acelerei. não podia chegar atrasado. é a vida. ou a morte?
 
escrito por jorge leite de siqueira
 
 

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