05 dezembro 2012

crônica: inquietude

querido diário,

hoje, pela manhã, vindo ao trabalho, de moto, cruzei por uma mulher que atravessava a rua levando três cães para passear. fiquei pensando se aquilo, para ela, era uma prisão ou um prazer. não consegui chegar a uma conclusão. na verdade só dentro de sua cabeça estaria a resposta.

talvez (e eu tenho quase certeza disso) ela não me responderia com honestidade e aquilo era um prazer. acho que ela falaria que é um prazer. sorriria, afagaria a cabeça dos cachorros (de dois, pelo menos) e continuaria andando. acho que depois de cinco ou seis passos ela desfaria o sorriso.

o pior é que acho que daí então, depois da minha pergunta, ela começaria a se questionar se aquilo era um prazer ou uma obrigação. e seria esse questionamento o início da tragédia.

eu já agi como essa mulher, sem questionar a vida, sem questionar meus pequenos atos. não questionava nem os grandes. mas, em meu crescimento humano, um dia, um bendito dia eu comecei a questionar tudo. a existência, a minha existência, a existência divina, a existência das pedras, a existência da inteligência, a existência da ignorância. e por aí vai.

não sei quando isso começou a acontecer. eu acho que tudo aconteceu depois de minha separação, quando comecei a me relacionar com pessoas inteligentes, criativas, inquietas, etc. acho que tudo começou em santa bárbara d´oeste.

mas, pensando bem, isso não vem ao caso.

o que interessa é que não consigo ficar satisfeito com nada. meus cães são mais de três. minhas mulheres são mais de mil. meus questionamentos são infinitos. não consigo ter fé, não consigo me acostumar com amigos inconsequentes, não consigo me satisfazer com um emprego medíocre que faria tantos felizes. não consigo nem me consolar com o silêncio existente pois a qualquer momento (mesmo que dure horas) o silêncio será rompido.

filosofia? psicologia? esquizofrenia? não sei quem pode me ajudar. muito menos, não sei quem pode me criticar. não gostaria de ser assim. gostaria de me sentar no banco da igreja e rezar, orar, cantar alegremente e com fé, obediência cega. gostaria que me fizessem uma lavagem cerebral onde eu pudesse me esquecer de tudo o que sei, ou o que penso que sei.

já se imaginou rezando "pai nosso que estais nos céus" e se questionar: que pai? que céus? eu sou assim. um poço de dúvidas, de inquietações.

eu não sou ruim, não faço o mal, não sou perverso ou tenho perversões. mas tenho um grande defeito: eu quero que as pessoas pensem como eu. eu não consigo ter um bom relacionamento porque quero que a mulher questione a vida como eu questiono. isso é ridículo, você diz. eu sei que é.

por isso quero viver sozinho. por isso procuro a solidão. por isso me afasto dos amigos (que amigos?) e da família. por isso não durmo bem, não vivo bem, não realizo meus sonhos. por isso estou envelhecendo rapidamente. por isso minhas dores de cabeça, das costas, das pernas, todas estão aumentando. por isso estou engordando. por isso não paro em lugar nenhum. por isso nunca chego na hora (sempre adiantado). por isso. por isso.

fiz um passeio maravilhoso. e louco. andei 1.700 km em uma moto 150 cc. em cinco dias. fui ao paraná, na praia. eu pensava em ir a santos mas pensava na distância, nas dificuldades, na serra, na estrada, etc. de repente, não mais que de repente eu saí para a praia do estado vizinho. paraná. saí pela manhã e à noite eu estava há 702 km de distância de casa. na beira do mar. ouvindo as ondas. e peguei tráfego, serra, chuva, escuridão da noite, desconhecido, etc. bem pior do que ir a santos. e fui. e cheguei. cansado mas feliz. e voltei pela praia, como sempre quis. fui em cananeia, fui em ilha comprida, fui em iguape. fui, passeei, tirei fotos, fiz turismo, conheci. maravilhosa a volta para casa. subindo serra, estradas maravilhosas, restaurantes, pessoas diferentes, sotaques diferentes.

e uma semana depois a insatisfação voltou. é adrenalina? querer mais, e mais, e mais? o que é essa inquietude que me mata?

não quero amar. não quero trabalhar. não quero morar. não quero nada. ou quero. quero andar, andar, andar, pelo desconhecido, a pé, de moto, de ônibus, sem parar, sem nem pensar, tirando fotos, escrevendo bobagens, sobrevivendo como der.

o que é essa inquietude? uma doença?

ou é a vida?


escrito por jorge leite de siqueira

 

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