10 dezembro 2012

Da Lata


Se você esteve em outro planeta durante o ano de 1987, provavelmente ainda não escutou a história das latas. 

Em novembro deste ano, um navio chamado "Solana Star" com um carregamento de 15.000 latas de maconha (pesando 1,25 Kg cada) procedente da Indonésia, passava alegremente pelo litoral do Brasil em direção aos Estados Unidos. Seus tripulantes ficaram então sabendo - não se sabe bem como - que policiais brasileiros e agentes do DEA (Drug Enforcement Agency) americano, estavam prontos para interceptar o carregamento.

Temerosos de serem presos, os tripulantes jogaram toda a carga no mar a umas 100 milhas da costa e penetraram sorrateiramente no porto do Rio de Janeiro durante a noite, onde abandonaram o navio. O único que sobrou foi o cozinheiro, que foi prontamente detido pelas autoridades. 

Durante várias semanas, latas do material foram lançadas contra as praias brasileiras no litoral entre Espírito Santo a Santa Catarina. 

Mais ou menos nesta época por coincidência, fomos fazer um passeio de veleiro do Saco da Ribeira em Ubatuba até a ilha das Couves, a umas 25 milhas de distância do Saco. Era um destes passeios de fim de semana. A ilha das Couves é lindíssima e fica nas proximidades da praia de Picinguaba, um dos mais belos pontos do litoral paulista. É uma ilha desabitada. Tem uma pequena e calma praia, bem abrigada do mar de leste. É também um local propício para o mergulho. O único inconveniente são os borrachudos, que gostam de atacar de manhãzinha e ao entardecer. 
 
No barco cinco pessoas. No meio do percurso, sol escaldante, estávamos quatro dando um "bodinho" dentro da cabine barco e somente o timoneiro estava fora. De repente, ele entrou no barco voando de peixinho, gritando como um desesperado: "uma lata..eu ví uma lata...". 

Parecia alguém que saindo do deserto, encontrara uma limonada. 

Fomos todos ver também. Mas o mar picado dificultava a localização do pequeno objeto. Não mais a vimos. Alguns acharam que se tratava de uma miragem. Mais alguns minutos e outra lata apareceu. Aproximamos o barco na vela e eu me estiquei para retirá-la da água. Na primeira tentativa nada feito. Cambamos o barco e rumamos para a lata novamente. Desta vez eu peguei.

Há algumas semanas boiando no mar, a lata estava cheia de moluscos grudados. Era como uma destas latas grandes de Nescau, mas sem rótulo. Chegamos então à Ilha das Couves e jogamos ferro na prainha, em um local com uns 6 metros de profundidade. 

O final de tarde foi belíssimo. 

Da ilha das couves se vê o por do sol nas escarpas da serra do mar, a 40 milhas de distância. Durante a noite ventou um sudoeste fortinho, que tornou o sono meio balançado.

De manhã acordamos, tomamos um belo café, levantamos o ferro e fomos dar uma voltinha, com ajuda do motorzinho. O vento sudoeste que ventara durante toda a noite tinha jogado tudo que flutuava na baia de Ubatuba contra a Ilha: galhos de árvores, cascas de coco, garrafas plásticas e... mais duas latas. Recolhemo-las prontamente e colocamos no estoque. Não sabíamos exatamente como proceder com as latas. E se um barco da marinha nos interceptasse? Com 4 kg de maconha a bordo provavelmente seríamos presos como traficantes. É claro que se isso acontecesse, diriámos que estávamos levando o incidioso material para entrega às autoridades. Mas felizmente ninguém apareceu.
 
Ao chegar de volta em Ubatuba, levamos as latas para a casa de um dos tripulantes. Abrimos para ver o que tinha dentro. O conteúdo era altamente prensado. No meio do material, alguns pedacinhos de jornal escritos em letras estranhas indicavam a procedência oriental da carga. A título experimental, "deschavamos" o conteúdo de uma das latas e "enrolamos" em uma folha de jornal. O resultado foi um "baseado" de 50 cm de comprimento por 15 de diâmetro que provavelmente deveria constar no livro Guiness dos recordes.

Como diz o Barão Vermelho, "apertamos, mas não acendemos agora". A fumaça de tal objeto provavelmente traria o corpo de bombeiros. As latas, é claro, foram prontamente encaminhadas às autoridades competentes... 

Ficamos mais tarde sabendo de muitas histórias engraçadas relacionadas a essas latas:

  • Um surfista achou uma. Ao perceber que os guardas viram e estavam na praia esperando, ele permaneceu na água noite a dentro, até os guardas irem embora.
  • Neste mesmo fim de semana, um antes do nosso passeio, a polícia de Ubatuba recolheu mais de 300 latas somente na Praia Grande.
  • Correu um boato que um certo diretor de uma emissora de TV teria acumulado 600 em sua casa em Angra e que teria comprado vários freezers para estocar o material.
  • O dono de uma lancha grande recolheu 25 latas. Descarregou no Saco da Ribeira e chamou os policiais para levá-las. Os marinheiros no pier ficaram olhando as latas com água na boca enquanto elas eram carregadas na viatura.
Até hoje a expressão "da lata" é sinônimo de algo bom, numa referência à boa qualidade do material contido naquelas Latas.

Uma destas coisas engraçadas que não acontecem todos os dias. Jô Soares escreveu em uma crônica na Veja que 87 não seria lembrado por nenhum acontecimento político, econômico ou esportivo: seria lembrado como o ano das Latas.

Texto retirado de: http://www.tecepe.com.br/bike/latas.htm

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