15 março 2013

35ª crônica - animais


todos os dias, quando saio, quando chego, está lá, ela, a xuxa, a cachorra da vizinha, a cadela da vizinha, balançando o rabo pra mim, a cauda, sorrindo, implorando por atenção.



tudo por algumas migalhas de pão. literalmente.



e eu, seduzido, volto à cozinha e pego um pãozinho, meio duro, adormecido. coloco em sua boca, enorme, que abocanha violentamente, faminta. e sai, como que rebolando, para sua casinha.



eu sorrio. divirto-me com a xuxa.



e o gato, invejoso, está ali, ao pé da moto, esperando sua vez. eu ligo a moto, ele se assusta, corre para a rua. vem outra moto. cuidado! não dá tempo, há o choque. graças a tantas vidas felinas ele sobrevive intacto. quase intacto. não pode mais ouvir a moto que se esconde.



e saio. vou trabalhar.



logo à esquina há os meninos de rua, que me perseguem, latindo, tentando morder o pneu. ah, meninos, vira-latas, bonitos de se ver, brincando sem nada a perder.



eu gostaria de ser um vira-latas. eu viveria andando pelas ruas, pelos bairros, sem me apegar a nada, a ninguém. só fingiria algum amor em troca de um pedaço de carne, de um prato de ração. e quando eu me enjoasse, mudaria de cidade. se fosse uma cidade à beira-mar eu iria me banhar todos os dias, bem cedo, para que o meu deus canino pudesse me abençoar.



mas não era disso que eu queria falar.



eu queria falar que uma vez eu atropelei uma galinha. de moto. foi pena pra todo lado. galinha não pensa. se atira na frente da moto, não dá tempo de desviar. eu achei que tinha matado a galinha, mas, que nada, ela saiu correndo. quase voando. careca, claro.



mais sério, uma vez eu atropelei um boi. um garrote. para quem não sabe, garrote é como se fosse um rapazinho boi. mais novo. pois então, eu ia em meu caminho a uns cem quilômetros por hora. vi, lá na frente alguns animais atravessando a pista. era no nordeste. pernambuco. muito comum os bodes atravessando a pista.



aí eu diminuí a velocidade. oitenta por hora, sei lá. de repente, do nada surge o garrote. pula na frente do carro. belina. esposa ao lado, amigo e filho atrás. e o garrote cisma de espancar o radiador do carro. bati em seu corpo que rodopiou, pisou no para-brisa, escorregou (lodo nas patas), deitou no teto da carro e caiu lá atrás.



parei, claro, assustado. nada tão sério de ferimentos. só o carro pra consertar. acelerei rápido para chegar à cidade antes que a água do radiador acabasse. ainda pude ver os outros carros parando perto do garrote. facas acionadas.



e em algum lugar houve um belo churrasco de garrote.

escrito por jorge leite de siqueira.


Nenhum comentário:

Dez mitos sobre dietas

Muitos mitos você com certeza já deve ter ouvido e talvez até possa acreditar, mas o fato é que não correspondem à realidade. Aqui vão ...