20 março 2013

37ª crônica - economia


vindo ao trabalho, sou atrapalhado por um motorista barbeiro: ele anda no meio da pista. não me permite ultrapassá-lo. e anda devagar. irritado, decido me controlar e diminuo a velocidade. quero ver até onde isso vai dar.

bruscamente ele vira a esquina. não deu seta. isso me irrita muito. é tão simples. é pura educação.

por coincidência ele segue na mesma direção que eu e acaba estacionando perto de mim. eu vou conversar com ele.

o motorista é um senhor, quase cinquentão. ainda não saiu do carro. parece triste. deve estar sofrendo.

puxo conversa. pergunto se está tudo bem. por educação. ele resolve responder a verdade: não, não está tudo bem. e começa a deslanchar uma série de problemas: o salário da prefeitura não dá pra nada, as contas estão atrasadas, etc.

pra piorar fez um empréstimo consignado que desconta trinta por cento do salário todos os meses. o que sobra paga o aluguel, a água e luz. tem sessenta reais de internet que é seu único luxo. o que sobra mal dá para pagar a sua alimentação.

eu fico triste. estou na mesma situação.

e ele continua contando o que anda fazendo para economizar. parou de frequentar os barzinhos onde se divertia. nem bebe mais. só bavaria. comprada em supermercado. e bem esporadicamente. cultura nenhuma. cinema? teatro? nada. só vai a espetáculos gratuitos.

coitado. digo, coitados de nós dois. tão parecidos.

em casa não janta mais. é pão com café para virar a noite. almoça no restaurante popular onde é mais barato. está economizando sabonete: não usa em todos os banhos. está economizando papel higiênico: aproveita o banho para se limpar. está economizando creme dental: escova os dentes uma vez por dia.

opa. aí não. agora a coisa ficou séria.

eu já estava ficando vermelho. não sou tão parecido assim, não. aí já é demais.

mas, o pior mesmo, o que eu não aguentei foi o que veio a seguir: ele andava no meio da pista com medo de “riscar” o carro; andava devagar para não gastar os pneus; e o pior, o exagero dos exageros: não dava seta para não gastar a bateria do carro.

daí eu não aguentei. puxei o cara para fora do carro e dei porrada nele. com gosto. bati no cara como gostaria de bater em todos os motoristas que não dão seta. só parei quando alguém nos separou.

hoje já estou solto. a polícia entendeu minha loucura e me liberou. e me pediram para não dirigir mais.

não sei porquê. os outros é que erram...



escrito por jorge leite de siqueira em uma tarde chuvosa. esta história não é verídica, claro, pois eu não sou violento. mas fico irritado, sim, com os motoristas mal educados.



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