26 abril 2013

43ª crônica – e se eu tivesse uma kombi?



essa crônica é sobre um sonho. um sonho que poderia se tornar um filme. um filme que já deve existir, mas que eu ainda não assisti. um filme que conta uma história de liberdade. uma história que seria mais ou menos assim...

...ligo a kombi, é manhã, está frio. acelero, esquento o motor, mesmo sendo à gasolina.

uma vez eu tive uma kombi à álcool, mas é muito ruim, não tem força. não gastava muito, mas não gostei. se pelo menos a gente pudesse beber o álcool do tanque.

mas não era isso que eu queria falar. eu queria falar da kombi que não tenho.

e se eu tivesse uma kombi, como seria?

a primeira coisa que eu faria seria pintá-la bem psicodelicamente. eu mesmo pintaria. usaria as cores mais fortes e loucas que eu pudesse. faria sinais hippies misturados a frases malucas e com inserções de pequenas caveiras sombrias. eu faria o colorido sobressair. as caveiras seriam o toque sinistro da vida.

iria chamar a atenção em qualquer lugar que eu chegasse. não que eu me importe com isso.

mas, não adianta nada ter uma kombi assim e manter essa vida que tenho. eu não saio do lugar. estou me preocupando com a insegurança do amanhã, a insegurança de viver. estou apegado ao que tenho. e o que tenho? um emprego estável. emprego? estável? tem certeza?

mas não era isso que eu queria falar. eu queria falar da minha kombi imaginária.

se eu tivesse uma kombi eu visitaria uma cidade por dia. tiraria muitas fotos. tiraria fotos de alguns locais pré-determinados, tipo:prefeitura,  praça da matriz, câmara de vereadores, cemitério. e de pontos turísticos. 

fotografar é um hobby que me agrada. expor as minhas fotos é outra coisa que me satisfaz. assim, preciso encontrar um site em que expusesse as minhas fotos e ganhasse alguma coisa com isso.

preciso de ganhar algum dinheiro para viver. poderia vender camisetas. ou vender artesanato. ou vender as fotos. preciso encontrar uma saída.

o ideal é ganhar algum patrocínio. será que consigo alguém que se interesse pelas minhas fotos? pela minha idéia de visitar uma cidade por dia?

não quero muito dinheiro. não quero acumular dinheiro. quero viver um dia por vez até o final de minha vida de uma forma “poética”, realizando meus desejos, fazendo minhas vontades. eu me livraria dos grilhões sociais, das correntes psicológicas que me prendem. viver uma paz que existe dentro de mim. que eu considero ser possível de viver.

sei que surgirão problemas. sei que não terei amigos ou namoradas. sei que não construirei heranças para meus filhos. sei que não asseguro nem ao menos a minha aposentadoria.

sei que continuarei insignificante.

sei disso tudo mas poderia fazer uma história. não uma história ensinada em escolas. faria apenas uma história que seria contada aos meus netos. uma história que os fizesse se orgulhar de mim. uma historia que os fizesse serem diferentes de mim. eu, que nem ao menos sei o nome de meu avô.

gostaria de fazer a “minha” história.

mas, isso é um sonho. eu não sou nada disso. não sou maluco, não sou louco. não sou capaz de realizar meus sonhos.

mas não era isso que eu queria falar...



escrito por jorge leite de siqueira, de olhos bem abertos, e dormindo profundamente...





23 abril 2013

42ª crônica – o que você está querendo?

e repente, do nada, chega uma mensagem no meu celular. quem me mandou a mensagem eu não sei. não conheço o número. não veio nome. está escrito apenas uma frase, uma pergunta: o que você está querendo?
entrei em crise na hora! o que estou querendo? o que estou querendo? o que eu estou querendo? eu não sei. já disse que eu não sei.

há milhares de anos – desde que nasci – venho procurando a resposta desta e de outras perguntas.
na verdade, pensando bem, é bastante ambígua esta pergunta. o que estou querendo? a respeito de quê? sobre o quê? sobre a minha vida? sobre meu trabalho? sobre meus relacionamentos?

ah, se eu soubesse quem me mandou a mensagem! se eu soubesse seria muito mais fácil responde-la.
se fosse meu chefe, eu falaria que estou planejando fazer um curso superior para melhorar profissionalmente; falaria que estou me dedicando em estudos virtuais para aperfeiçoar minhas habilidades diversas; diria que não penso em demissão de forma alguma; diria mentiras diversas.

se fosse minha namorada, eu falaria que não vejo a hora de comprar a aliança de noivado; diria que faço planos da casa nova que vamos comprar e viver felizes com nossos oito filhos; diria que as próximas férias serão no mesmo mês e as passagens já estão compradas para um mês inteiro na praia; ou diria outras mentiras melhores.

se fosse minha família eu falaria que faço planos de ser feliz; que nunca mais encostei a boca num copo de cerveja; que deixei de pensar em andar sem rumo como um andarilho; que voltei a escrever poesias; ou apenas mentiria como venho fazendo há anos.

mas se fosse minha alma perguntando eu não mentiria como acabei de fazer. eu falaria a verdade. eu diria que só penso na varanda da casa em frente ao mar; diria que só penso nos dias passando sem que eu me preocupasse mais com nada importante; diria que acredito na felicidade simples.

como eu sei que almas não mandam sms, eu acho melhor ficar bem esperto pois pode ser artimanha do sni para acompanhar meus passos. como sei que o sni já foi extinto acho que é o fbi que está de olho em mim. como sei que o fbi é americano deve ser o governo que acha que tenho informações sigilosas da esquerda. como sei que é a esquerda que está no poder com certeza são meus fantasmas de infância que me mandaram a mensagem.

mas, como sei que fantasmas não mandam mensagens, devo estar ficando louco. menos mal. assim perderia os medos que ainda tenho.

ou apenas aceitaria meu complexo de perseguição. 

escrito por jorge leite de siqueira, escondido no banheiro, com as veias saltitando de emoção em saber que seus neurônios não foram abduzidos pelos extraterrestres que existem nas casas vizinhas.

15 abril 2013

41ª crônica - frio



o despertador toca insistentemente. não sei há quanto tempo está tocando, mas sei que já é hora de enfrentar a rotina da vida.

meu deus! o cobertor está tão quente! que vontade de ficar aqui. quem me matriculou na academia? eu não quero ir para a academia! quero ficar aqui nesta cama quentinha. quero ficar debaixo desse cobertor fofinho.

começo a brigar com meu cérebro. ele diz que é de bom senso eu me levantar. eu digo que estou cansado e quero ficar deitado. ele diz que todo mundo já se levantou. eu digo que não sou todo mundo. ele diz que sou preguiçoso. eu digo que todo dia sou corajoso, só hoje que não. ele diz para eu criar vergonha na cara - parece meu pai quando gritava comigo. eu digo que ele venceu, que eu desisto. nocaute técnico.

dizem que se a gente levanta, se acostuma. então, vamos lá, vamos nos levantar.

que dia é hoje? segunda-feira. meu deus! segunda-feira! dia de branco. dia de batente. dia de trabalhar. o início da semana. o início de mais uma semana. incrível como o fim de semana passa rápido. os passeios voam. a bebedeira acaba rapidinho. os namoros nem se iniciam e já se acabam. mas, vamos lá, vamos para a academia.

abro a porta. a neblina lá fora me assusta. brrr. que frio! não quero, não vou. não vou, não quero. não quero, mas vou, senão vão me crucificar. vou. fui.

voltei uma hora depois. quente. academia é bom. relaxa. que bom. que maravilha.

tomei um banho quente, bem quente. quase não consigo sair do chuveiro. mas saio. faço café, bebo café. visto-me. fico bem agasalhado. subo na moto. vou. venho. fui.

estou bem melhor agora, depois da academia. o sono não está mais comigo.

início de semana. chego ao trabalho. estaciono. sou um dos primeiros. vou marcar o ponto e o que vejo? dois colegas. que saudades de vocês! cantando, cumprimento-os. eles não me entendem. estão com os olhos quase fechados. e bem mais agasalhados que eu. e sussurram algo que não entendo. sorrindo, pergunto qualquer coisa. um vira para o outro e diz: que final de semana bom ele teve, né? para chegar com tanto gás.


e foi então que caiu a ficha e voltei ao normal. ou melhor, ao meu normal. e meu normal é uma indefinição constante. quieto, ligo o computador e começo a trabalhar. quieto e competente. como tenho que ser: quieto, triste e competente.


será que amanhã fará frio?
  
escrito por jorge leite de siqueira, quieto e triste, e com muito frio.
 

14 abril 2013

Gonçalves Dias

Canção do Exílio

Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá;
As aves, que aqui gorjeiam,
Não gorjeiam como lá.

Nosso céu tem mais estrelas,
Nossas várzeas têm mais flores,
Nossos bosques têm mais vida,
Nossa vida mais amores.

Em cismar, sozinho, à noite,
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

Minha terra tem primores,
Que tais não encontro eu cá;
Em cismar — sozinho, à noite —
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

Não permita Deus que eu morra,
Sem que eu volte para lá;
Sem que desfrute os primores
Que não encontro por cá;
Sem qu’inda aviste as palmeiras,
Onde canta o Sabiá.


Gonçalves Dias

FÓRMULA UM 2013 - CLASSIFICAÇÃO


09 abril 2013

40ª crônica - o cotidiano


no automático – limpo e alimentado – sigo estrada adentro. zona urbana. acelero, breco, dou sinal, desvio, paro e sigo. no automático. começa a cair uma chuva repentina. quase repentina. está nublado. eu paro na praça. escondo-me na banca de revistas.

no jornal preto e branco, o vermelho está escorrendo. acidentes, mortes, violência. vermelho choque. e big brother. e novelas. e fofocas. só coisa ruim.

assustado, sento-me na praça. chove, mas agora é só uma garoa. começo a pensar no que somos, na ilusão que vivemos. somos hipocritamente certinhos. religiosos se odiando. profissionais fingindo perfeccionismos. familiares inconvenientes.

pura falsidade.

não vemos o lado bom das coisas. nunca. às vezes fingimos ver para sermos bonzinhos. sorrimos para todos, para os gatos, para as árvores. mas lá dentro carregamos algum tipo de rancor. saudamos as pessoas, os amigos, os colegas, todos, por puros costumes sociais. conveniências para nos manter aonde chegamos. e odiamos a tudo e a todos.

estou cansado disso tudo.  cansado de ser contra. quero ser a favor. contra a guerra? não. a favor da paz? sim.

tenho vontades diversas. vontade de quebrar as algemas e pular do prédio. vontade de tirar as roupas e andar pelas ruas. vontade de assinar as leis que nos permitam ser felizes.

estou cansado de tudo.

deus me fez um passarinho humano, colocou-me em uma gaiola social, tirou-me a voz, cortou-me as asas, prendeu-me ao poleiro. deus mesquinho, inexistente, preto e branco, fez-me pequeno grão. deus maravilhoso, onipresente, colorido, deu-me coragem e inteligência para desafiá-lo.

e eu o desafio a me fazer feliz. e eu o desafio a me dar um ambiente profissional feliz. e eu o desafio a me dar amigos felizes. e eu o desafio a me dar uma família feliz. e eu o desafio a me dar um planeta feliz.

e ele me desafia a ser feliz.

vejo uma mulher atravessando a rua com seu cachorrinho. é cedo, ainda, e não têm muitos carros. ela vai devagar. parece preocupada. não deve ser. deve ser cansaço. que tênis bonito! que cachorro bonito! mas, eu só vi o cansaço. que olhos lindos! que eu não vi. que boca perfeita! mas que parece triste.

e vivemos. apenas vivendo. gastando os minutos. comparando os ontens com os amanhãs. e esquecendo-se dos hojes. dos agoras. mas é assim mesmo: o dia passa devagar quando se está preso.

abre a janela! – você diz. não tem janelas. quebra as paredes! não tem paredes. e morro sufocado. mesmo com a chuva caindo por cima de mim. enxugo as lágrimas, ponho o capacete, subo na moto e vou trabalhar. o tempo continua a passar. devagar. bem devagar. muitíssimo devagar...

escrito por jorge leite de siqueira, muito cansado, e bem devagar...


Dez mitos sobre dietas

Muitos mitos você com certeza já deve ter ouvido e talvez até possa acreditar, mas o fato é que não correspondem à realidade. Aqui vão ...