09 abril 2013

40ª crônica - o cotidiano


no automático – limpo e alimentado – sigo estrada adentro. zona urbana. acelero, breco, dou sinal, desvio, paro e sigo. no automático. começa a cair uma chuva repentina. quase repentina. está nublado. eu paro na praça. escondo-me na banca de revistas.

no jornal preto e branco, o vermelho está escorrendo. acidentes, mortes, violência. vermelho choque. e big brother. e novelas. e fofocas. só coisa ruim.

assustado, sento-me na praça. chove, mas agora é só uma garoa. começo a pensar no que somos, na ilusão que vivemos. somos hipocritamente certinhos. religiosos se odiando. profissionais fingindo perfeccionismos. familiares inconvenientes.

pura falsidade.

não vemos o lado bom das coisas. nunca. às vezes fingimos ver para sermos bonzinhos. sorrimos para todos, para os gatos, para as árvores. mas lá dentro carregamos algum tipo de rancor. saudamos as pessoas, os amigos, os colegas, todos, por puros costumes sociais. conveniências para nos manter aonde chegamos. e odiamos a tudo e a todos.

estou cansado disso tudo.  cansado de ser contra. quero ser a favor. contra a guerra? não. a favor da paz? sim.

tenho vontades diversas. vontade de quebrar as algemas e pular do prédio. vontade de tirar as roupas e andar pelas ruas. vontade de assinar as leis que nos permitam ser felizes.

estou cansado de tudo.

deus me fez um passarinho humano, colocou-me em uma gaiola social, tirou-me a voz, cortou-me as asas, prendeu-me ao poleiro. deus mesquinho, inexistente, preto e branco, fez-me pequeno grão. deus maravilhoso, onipresente, colorido, deu-me coragem e inteligência para desafiá-lo.

e eu o desafio a me fazer feliz. e eu o desafio a me dar um ambiente profissional feliz. e eu o desafio a me dar amigos felizes. e eu o desafio a me dar uma família feliz. e eu o desafio a me dar um planeta feliz.

e ele me desafia a ser feliz.

vejo uma mulher atravessando a rua com seu cachorrinho. é cedo, ainda, e não têm muitos carros. ela vai devagar. parece preocupada. não deve ser. deve ser cansaço. que tênis bonito! que cachorro bonito! mas, eu só vi o cansaço. que olhos lindos! que eu não vi. que boca perfeita! mas que parece triste.

e vivemos. apenas vivendo. gastando os minutos. comparando os ontens com os amanhãs. e esquecendo-se dos hojes. dos agoras. mas é assim mesmo: o dia passa devagar quando se está preso.

abre a janela! – você diz. não tem janelas. quebra as paredes! não tem paredes. e morro sufocado. mesmo com a chuva caindo por cima de mim. enxugo as lágrimas, ponho o capacete, subo na moto e vou trabalhar. o tempo continua a passar. devagar. bem devagar. muitíssimo devagar...

escrito por jorge leite de siqueira, muito cansado, e bem devagar...


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