15 maio 2013

44ª crônica - sonho meu



eu estava pensando na vida. o que são sonhos? sonhos bons, sonhos maus. hoje acordei assustado, depois de um mau sonho. um pesadelo. no pesadelo havia acabado a comida do mundo. não sei direito o que havia acontecido, era um sonho, só sei que tinha acabado a comida do mundo. e o pesadelo começava quando as pessoas, como zumbis, mas conscientes, começaram a se devorar. amigos comendo amigos, literalmente. não podíamos confiar em ninguém. e conforme o tempo passava – no sonho, rapidamente – o desespero aumentava. e, como sonhos não se explicam – eu, pelo menos, não consigo – eu acordei de repente, assustado e feliz, pois o desespero acabou. havia comida. mas não havia ninguém para eu comer, ao meu lado. nem para me comer. literalmente, claro.

mas não era disso que eu queria falar.

eu queria falar que a minha moto quebrou. o câmbio desintegrou-se e fez com que as marchas falhassem a tal ponto de ter que trocá-lo. e para trocar o câmbio tem que abrir o motor. e isso leva tempo. e gasta dinheiro. e hoje já é quarta-feira e estou esperando a moto sair do conserto. e não sei como pagar. já te falei do cartão bmg card? outro dia eu te falo.

mas não era disso que eu queria falar.

eu queria falar sobre vir andando ao trabalho. e voltar também, claro. coisa que eu não fazia há tempos. na segunda-feira eu acordei mais cedo, fiz o necessário para ir andando (xixi, banho, café) e fui. mas, para zelar minha fama de fotógrafo andarilho peguei a máquina fotográfica e coloquei a tiracolo. claro. eu não iria perder a oportunidade de registrar esse momento. flores, cachorros, lixo, casas, carros. tudo seria registrado. (você pode ver aqui ttp://).

mas não era disso que eu queria falar.

eu queria falar dos detalhes. da vidraça quebrada da papelaria. quem quebrou? o que roubaram? ou foi só um ato de vandalismo sem roubo? mais adiante um louco. louco de pedra. no orelhão. tentando ligar para alguém. inquieto. não conseguia nem ligar. ia ao bar, falava sozinho. olhou para mim. acho que não me viu. falou coisas ininteligíveis com outros dois rapazes. coitado. ainda bem que haverá bolsa crack. mais à frente, uma lanchonete. a lanchonete dos taxistas. o curioso não foi a quantidade de taxistas dentro da lanchonete – e fora também –, mas sim os dois deficientes do lado de fora. um de cada lado da lanchonete. acho que estão acostumados a ganhar algum pão, ou café, ou os dois. e eu passei direto.

engraçados são os valores que temos na política. tanto descaso com saúde, com o social, com a segurança. tanto descaso com o povo. e há a preocupação com a aparência, com as ruas, com a praça, com as pinturas. com o que aparece. e as famílias vão se desfacelando. onde a droga entra, já era, vai haver alguma ruptura. e os jovens fracos. e bebida demais. e legal é ser ilegal. e eu vou parar por aqui senão vou chover no molhado.

para terminar eu gostaria de falar das flores. estamos no outono, mas há tantas flores. há tantas cores. tanto colorido entre o cinza da vida. eu fotografei para comprovar o que digo, como você pode ver lá naquele link acima. uma mulher na varanda. não fotografei, claro, seria uma invasão de privacidade, mas o que vi foi uma fotografia aos olhos. só no interior há aquilo. uma mulher, quarenta anos mais ou menos, na varanda. esperando o quê? o trem? alguém? ninguém? eu passei direto. mas quase parei para admirar a cena um pouco mais. coisas que só se vê com olhos poéticos.

eu sou feliz por ter olhos poéticos.

mas não era disso que eu queria falar...

escrito por jorge leite de siqueira, na manhã de quarta-feira, esperando o sistema entrar online para começar a demitir funcionários 


 

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