29 maio 2013

47ª crônica - eu vou morrer



meus amigos queridos, queria contar uma notícia trágica: descobri que estou morrendo. é uma notícia sinistra, eu sei, mas o que é a morte senão conseqüência da vida? todos irão morrer e quem sou eu para ser diferente?

alguns amigos meus já morreram. diversos amigos de infância já morreram. muitos familiares também já morreram. alguns ídolos, alguns inimigos, alguns desconhecidos. ontem mesmo morreu o vizinho de uma colega de trabalho. no sábado, olha só, eles fizeram um churrasco, beberam cerveja, comeram carne, contaram piadas, e ontem ele teve um infarto e morreu. eu sei que você pensou que ele era gordo e beberrão. não. ele não era. pelo contrário, ele era um desportista, magro, praticava cooper com frequência, caminhava, ia trabalhar de bicicleta e tinha menos de cinqüenta anos. e morreu.

mas eu não queria falar da morte dele. queria falar da minha.

eu soube que ia morrer quando fui ao médico, uns dias atrás. não contei a ninguém. até agora. agora resolvi contar para todo mundo: eu estou morrendo.

mas, olha só: jesus morreu, john lennon morreu, renato russo, cazuza, raul seixas, todos eles morreram. por que não eu? por que querer ser diferente? por que querer ser eterno? eu não! eu aceito a minha morte.

o que me chateia não é morrer. o que me deixa mal é saber o quanto eu poderia aproveitar da vida e não o fiz. quantas cidades ficarão sem que eu as visite? quantas ruas não sentirão os meus passos? quantas pessoas que não conversarão comigo? quantas coisas a fazer e nada fiz.

e por que não fiz? por covardia? por medo? por respeito? não vou responder. todos sabem porque não fiz e cada um tem uma opinião. pense assim: foi uma mistura de tudo. eu não fiz e todos deixam de fazer por medo, por respeito aos amigos e parentes, por apego ao que possui. todo ganho gera um prejuízo. e vice-versa.

mas não era isso que eu queria falar. eu queria falar que soube de minha morte na voz de um médico, um clínico geral. ele falou que eu ia morrer. eu agradeci a consulta. desejei que ele tivesse um bom dia e saí. não soube quando iria morrer. talvez hoje, talvez amanhã. talvez demore meses, talvez anos. podem ser até décadas. eu não perguntei e não vou voltar para saber a data exata.

eu só sei que vou morrer.

escrito por jorge leite de siqueira, vivo, ainda...



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