10 julho 2013

60ª crônica - e por falar em tristeza...


eu sou um homem triste. eu me acho triste. eu vivo triste. eu converso triste. eu sou triste. e sou alegre. mas, ser alegre não é ser feliz. posso ser triste.

hoje acordei no meio da noite assustado com alguma coisa que não soube o que era. pode ter sido um barulho de alguém (ou alguma coisa) que passou na rua. ou apenas um dos fantasmas que me acompanham.

estou ficando velho.

ao meu lado, na casa vizinha, mora um casal de velhinhos. ele acorda diversas vezes à noite. acho que é ele. e prepara coisas para comer às duas, três horas da madrugada. ela acorda às cinco pois às cinco e meia vai para a academia.

como eu sei disso? porque agora são três horas e estou escutando o vizinho bater a colher (ou garfo) no prato, como se estivesse comendo um bolo de chocolate cremoso e delicioso. ou de fubá. e está bebendo um copo de leite quente (acabou de ligar o micro-ondas).

lembrei porque acordei. quase agora o carro de polícia parou aqui em frente de casa. eram dois. um deles ficou traçando informações via rádio com a central. câmbio? qru? desligo. não entendi as mensagens. acho que eles também não. um carro ligou o motor e saiu lentamente. depois o outro o imitou.

preciso aprender a ser velho. preciso aprender a dormir menos, a ter mais dores, a cansar mais rapidamente, a ser mais chato, a perder mais do que ganhar. preciso entender que falta pouco tempo para tudo mas que não dá mais para recuperar o tempo perdido. e nem o passado perdido.

eu, sendo velho então, preciso me preparar para a aposentadoria. preciso ficar satisfeito com meu emprego, ser mais leve, ser mais velho, ser mais acomodado. preciso ter vida de velho.

preciso entender que não posso fazer essas viagens de moto, que devo comprar pacotes turísticos geriátricos como todos os velhos, ir para hotéis e viver quietinho e devagar como todos os velhos. bem devagar e irritantemente.

eu sou velho. preciso me conscientizar que minhas costas vão doer sempre, mesmo que eu não durma de mau jeito. pior, eu quase não vou dormir. e minhas costas vão doer mais que minhas pernas.

dramático? você acha? deve ser a crise dos cinqüenta que se aproxima.

eu me sinto rapaz, novo, cheio de saúde, inteligente, forte, corajoso, pronto para tudo. quando eu me olho ao espelho percebo que sou um homem, até novo para a idade que a identidade diz que tenho. quando vejo a minha data de nascimento começo a me comparar aos meus pais, aos parentes mais velhos, aos vizinhos e amigos mais velhos.

ontem, quando fui à farmácia comprar dorflex (coisa de velho), conversei com a vendedora. falei sobre as férias, as viagens, a moto. a pergunta dela foi dura: e afamília? o que acha disso? eu respondi apenas: eu não tenho família.

é ruim não ter família. é ruim não ter com quem dividir seus dias, sua vida. é triste não ter com quem dividir sua velhice. e eu fiz tantos planos: cadeiras de balanço na varanda, viagens, netos. é triste ver que estou virando um velho solitário.

mas posso não ser um velho triste?

saber que sou triste pode ser bom. posso identificar as fontes de tristeza e corrigi-las. posso mudar. posso fazer coisas que me façam feliz. coisas que eu gosto. hobbies, por exemplo.

e preciso me conscientizar que a preciso perder oito horas por dia no trabalho (para ganhar o salário que me fará feliz quando viajar nas férias).

não sei o que vou fazer, mas sei o que devo fazer. eu tentarei mudar. tentarei ser feliz. ouvirei músicas boas, lereis bons livros, tirarei fotos artísticas como gosto, farei caminhadas e correrei, escreverei bastante, assistirei filmes. e fugirei das manias modernas que me fazer perder tempo: facebook, por exemplo.

se ser velho é obrigatório, tentarei ser o melhor velho que eu puder. 

escrito por jorge leite de siqueira, com dor nas costas, mas muito alegre, pois está de férias.




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