10 julho 2013

61ª crônica - o morro do camelo



estou no alto da pedra mais alta. quase alcanço as mãos de deus. aqui é tão silencioso. não é frio. foi difícil chegar aqui. subi por trilhas, escalei pedras, desviei de galhos. talvez por isso seja mais legal. aqui se parece com um camelo. não daqui, mas lá de baixo. aqui é analândia. aqui é o morro do camelo. as pessoas lá de baixo devem estar me olhando. mas não me vêem. serei um tipo de deus? estou em seus olhos e vocês não me vêem. sou parte da montanha. sou a montanha.

se eu pudesse manipulá-los, como deus o faz, eu o faria.

não quero ouvir música aqui. quero ouvir o silêncio. e ver o tudo e o nada. o início e o fim. consigo ver o que há no cume da montanha vizinha. mato acima da pedra. árvores pequenas. urubus. o urubu pousou ao meu lado. assustou-se e foi embora. eu sou o ser estranho. minha moto laranja é quase uma formiga, invisível. tiro fotos. parece que preciso provar que estive aqui. não gosto de provar nada. mas parece que tenho a consciência pesada. preciso provar. preciso.

preciso provar que não preciso provar nada a ninguém.

o sol brilha. não faz frio. não faz calor. suei para chegar até aqui. as pernas não sabiam que eu faria essa loucura. enganei-as. enganei meu coração, também. por falar em coração, estou apaixonado. por mim. acho que comecei a me amar como sempre quis fazer. se vou ficar sozinho a partir de agora preciso ao menos gostar de mim. sei que esta escalada me fará bem para o corpo e para a alma. não agora. depois. no futuro.

e o que é o futuro?

o futuro é descer a montanha. e voltar para casa, um dia. o futuro é o depois. e o depois pode não chegar nunca. e eu perco o agora pelo depois? não. vou me concentrar naquela pedra que parece um cuscuzeiro. se eu fosse dar seu nome eu escolheria algo diferente. pedra quadrada? eqüilátera. pedra equilátera. acho que não sou bom em escolher nomes. o que são aquelas formigas subindo a pedra? homens? mulheres? com cordas? que loucos! ah, se eu tivesse minha lente de zoom! mas não tenho. então, o agora me diz que eu deva sorrir.

e esse peso nas costas?

parece que carrego o mundo comigo. já tirei tantos sacos de cimento e ainda continuo cansado. nesse mês eu tiro o resto. sinto muito por vocês que me lêem, mas eu preciso colocar esses sacos de cimento no chão. não estou doando. não estou jogando fora. estou colocando-os ao canto. quero sacos de penas, agora. agora. estou plantando penas. quero colher leveza. paz. vou conseguir. com certeza vou conseguir.
mas agora estou no camelo. e aqui no camelo só há leveza. e ali ao lado também há leveza. e leveza é bonito, colorido, calmo. queria dormir. não vou dormir. quero cansar a vista. quero encher a minha alma com essa paz, com essa pureza, com essa harmonia. respiro fundo. enche em mim. ar puro. paz pura. hoje dormirei melhor.

acho que encontrei deus.

escrito por jorge leite de siqueira em cima do morro do camelo.







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