05 julho 2013

57ª crônica - super-herói



eu tenho super poderes. não levanto aviões nem sou rápido, não consigo ficar invisível nem sei brigar com meus inimigos. meu poder está na minha cabeça. são os meus pensamentos.

minha força está nas minhas palavras.

eu poderia pensar num pudim, por exemplo, e falar de seu sabor, de sua textura, de sua cor. da delícia que é saboreá-lo, aos poucos, prendendo-o por segundos sobre a língua, apertando-o ao céu da boca, até que o corpo inteiro desfrute do magnífico sabor de chocolate que o pudim tem.

talvez devesse falar da delícia que é ser um pudim. e sentir seus dentes me despedaçando, sua saliva me envolvendo, sua língua me sugando, seu corpo me devorando.

também poderia mostrar a tediosa existência do pudim. ficar por horas no fogo, depois esperar na geladeira até enrijecer-me. pousar à mesa à espera de ser saboreado. e saber que sempre sobra um pouco de mim que ninguém quer, e que com certeza vai acabar no lixo.

conseguiu ver o pudim? tenho ou não tenho super poderes?

posso te enganar dizendo o quanto te amo, ou posso te irritar expondo teu ódio. posso te emocionar contando belas histórias e parábolas. posso te convencer de que é a melhor pessoa do mundo. ou te desprezar.

esses são os meus super poderes. palavras, pensamentos.

às vezes dá tudo errado. fica tudo atrapalhado, incoerente. mas basta eu respirar fundo e tudo volta ao normal.

para mim, claro, que tenho super poderes.

o gato, por exemplo, me agradece. ele é carinhoso, manso, quente. independente, não espera  minha atenção. some, mas quando aparece, no frio, todos o querem no colo. já o cachorro não, é violento, estabanado, tem dentes agressivos. seus latidos são irritantes e incomodam à noite. e é preciso alimentá-lo senão não come. dependente.

e se meus pensamentos mudarem?

posso mostrar como o gato é egoísta, como lhe falta sensibilidade em não valorizar meus carinhos. apenas quer comida. o gato é um interesseiro fresco. não gosta de ninguém. gosta de seu cantinho e de comer. e dormir. o cachorro, não. o cachorro é atencioso e me espera no portão de casa quando volto do trabalho. vigia minhas coisas e não permite que eu seja atacado por estranhos. é amigo, fica feliz ou triste conforme eu fico. dá a vida por mim.

meus super poderes são fortes e convencem. basta eu querer.

no entanto esses poderes são veneno em mim. afligem-me à noite, lembrando-me do passado. e quando eu uso esses poderes de forma covarde posso estar fazendo o mal. e, pior ainda, posso estar fazendo o mal a mim mesmo. é uma espécie de suicídio. é como uma dose de remédios bem forte que me corrói por dentro, na cabeça, no cérebro, no coração. e sei que meus poderes vão me matar.

então também sou vilão?

jogo palavras no papel. quero que todos as leiam. quero mostrar o que penso: os meus poderes. se você está me lendo, sorte sua, está salvo. meus poderes devem servir para alguma coisa.

afinal, super poderes não são para qualquer um.

escrito por jorge leite de siqueira, bem cedo, no sexto dia de férias. e a lente ainda não chegou.


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