28 novembro 2013

63ª crônica - a cigana leu o meu destino


eu estava andando calmamente pelas ruas do centro quando senti algo segurando meu cotovelo, por trás, e me puxando mansamente disse:

- quer saber o seu futuro, meu filho?

era uma cigana, loira, bem vestida com suas roupas coloridas. suas unhas enormes não me ameaçavam, mas seus olhos entraram profundamente em minha alma, mexendo com meus poucos filamentos neurosensoriais. por um instante eu acreditei que ela poderia ler o meu destino e sorri aquele sorriso imbecil de presa pronta a ser devorada.

- me dê cá a sua mão, querido!

seus pedidos eram ordens corporais. eu já estava entregue aos seus feitiços e nem percebi que minha mão estava em suas mãos. linhas expostas, ela começou a prever, misturando passado, presente e futuro:

- quanto dinheiro! vejo aqui que você está bastante apertado, ultimamente, mas já teve muito dinheiro nas mãos. e vejo muito dinheiro no futuro! olhe só a grossura de sua linha da fortuna!

é, realmente já tive muito dinheiro nas mãos: eu era caixa de banco! isso é normal. ela acertou. acertou também quando disse que estou bastante apertado, ultimamente. vivo dia-a-dia, sem acumular dinheiro nenhum. não ganho muito, mas gasto o que ganho. com muito prazer.

- você tem muita sorte, também. nossa! sua linha da sorte é muito bonita. parabéns.

eu tenho muita sorte. acertou novamente. realizo todos os meus desejos, só que não desejo nada espetacular. será que preciso mudar os desejos?

- você não terá problemas sérios de saúde, bem como nunca teve. vejo aqui dois pequenos cortes, mas são insignificantes. você morrerá idoso, velhinho amparado pelos amigos e pela família.

nunca tive sérios problemas de saúde. acertou, cigana, mais uma vez. parabéns. espero que acerte também o futuro. quanto aos cortes, será que foram as duas cirurgias que fiz? devem ser, devem ser.

- mas aqui na linha do coração o negócio está feio, hein! quanto amor! vejo aqui uma separação, ou melhor, duas separações. hummm. vejo um longo período sozinho e novamente um envolvimento sério, lá no futuro, mas é uma coisa que não gostaria de falar, pois a pessoa que você vai se envolver vai morrer logo em seguida. vejo que você será viúvo, meu filho! mas não é coisa próxima, não, é só daqui a alguns anos.

eu vivi dezessete anos com uma mulher e nos separamos. depois vivi quatro com outra e nos separamos de novo. ou seja, ela acertou. o futuro? quem sabe? é esperar para ver.

- é, rapaz, vejo que você não é fácil. tem traição aqui na sua história.

pois é. pois é.

- e é isso! me dê um dinheirinho, meu filho, para ajudar a pobre cigana a manter sua família, a comprar alimento para seus filhos. me dê um dinheirinho, meu filho.

eu tirei cinco reais, mas ela levou a nota de vinte que saiu ao mesmo tempo.

- obrigado, meu filho, obrigado. você foi uma das melhores adivinhações que já fiz. tudo está claro, escancarado! o seu destino é muito fácil de se acompanhar. boa sorte.

opa, espera aí! por que ela disse boa sorte? se ela leu, detalhou todas as nuances que posso ter em meus dias, por que ela disse boa sorte?

- ei, cigana, por que você disse boa sorte?

- pois é, meu filho, a história nunca é completa. se você quer saber um pouco mais, eu posso te dizer, mas eu preciso alimentar meus filhos. você me dá aquela outra nota de vinte reais?

não sei, não, mas acho que estou começando a entender o que ela quis dizer com “boa sorte”...

autor: jorge leite de siqueira


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