18 fevereiro 2014

Cartas ao meu amor (Parte IV)

Boa noite, meu amor. Tudo bem?
Eu não estou muito legal. Lembra-se daquela minha gata? Pois é, ela morreu. Não foi nada cruel tipo ser atropelada ou espancada, ela apenas amanheceu morta.

Ela estava velhinha, né? Eu a peguei há alguns anos - cinco, seis, sei lá - mas ela já era velhinha. Estava gorda, parecia castrada, mas acho que a velhice engorda os seres. Eu também estou gordo. E velho.

Apareceu morta. Em sua caminha.

Eu fiquei triste com a sua morte. Tentei disfarçar hoje no trabalho mas nem meus sorrisos prontos, nem minhas falas decoradas conseguiram me ajudar. Acho que meus olhos me denunciaram. Diversos clientes e colegas me perguntaram se havia acontecido algo.

É difícil disfarçar a tristeza.

Mas o tempo - ah, o tempo - o tempo cura tudo e me fará esquecê-la. Eu adorava aquela gata. Ela se deitava em meu colo, mordia minha orelha, brincava com meus sapatos. Tirei muitas fotos dela. Nunca mais terei outra gata como aquela.

Não chorei, não sei por quê, mas não chorei. Apenas fiquei com os olhos tristes. Acho que a dor era mais profunda, na alma, e isso chamou a atenção dos outros.

Mas, como eu disse, o tempo cura tudo e daqui a pouco estarei soltando gargalhadas e a esquecerei. Daqui a pouco a minha gata será apenas uma mera recordação. Daqui a pouco. Agora ela me faz falta.

Mas, é isso aí, amor, hoje te trouxe notícias ruins, mas todos os relacionamentos são assim, uma troca de sentimentos. Quando se acabam os sentimentos acaba-se tudo.

E tudo será uma mísera amizade. Boa noite, amor. Fica em paz.

JORGE LEITE DE SIQUEIRA

Nenhum comentário:

Dez mitos sobre dietas

Muitos mitos você com certeza já deve ter ouvido e talvez até possa acreditar, mas o fato é que não correspondem à realidade. Aqui vão ...