09 janeiro 2016

crônica: graças a deus pelas cores

querido diário,

vindo ao trabalho hoje, com minha moto laranja cento e cinquenta cilindradas, olhando o azul do céu de um lado e o cinza escuro de outro, corro para não pegar chuva. se estivesse voltando do trabalho eu iria bem devagar, para pegar chuva, de propósito. é muito bom quando não se tem compromisso.

mas não era isso que eu queria dizer. eu estava falando do cinza dos carros. você já viu quantos carros cinzas? que ridículo! quer dizer, ridículo em meu ponto de vista.

graças a deus pelas cores.

de repente passa um fiat amarelo. que maravilha! destaca-se entre todos. que coragem desse motorista, fugir do normal, afrontar a todos com a perspectiva de perder no futuro. perder? sim, o cinza dos carros é porque desvaloriza menos. acredita? desvalorizando menos você tem algo feio, comum, igual a todos, que não foge dos padrões, que obedece dogmas, que obedece mídia, que obedece conceitos criados pelos mesmos que criaram o carro cinza.

graças a deus pelas cores.

de repente, uma árvore rosa. quer dizer, florida de flores cor-de-rosa. ao lado, outra árvore, amarela. o céu cinza parece querer chamar a atenção, pingando algumas gotas que naquele momento parecem cinza para mim. um cinza que cai do céu mas não considero abençoado por deus. já pensou em gotas coloridas? não! nem pensar! iria afrontar alguma lei. iriam proibir na mídia. iriam exigir de são pedro que chovesse cinza. então, que chova cinza.

graças a deus pelas cores.

curioso. a mulher que atravessa a rua com um cachorrinho (não é a mesma de ontem) está com calça jeans (cinza escuro) e camiseta cinza claro. o cachorro é branco acinzentado de sujeira. a rua é cinza super escuro.

a vida está ficando cinza? ou serei eu? não. eu não. eu ainda vejo colorido.

graças a deus pelas cores.


jorge leite de siqueira - (06/12/2012 - quinta-feira)

08 janeiro 2016

Filosofando sobre Quintana

Lendo o Caderno H do Mário Quintana, deparo-me com a seguinte afirmação:

SONHO
Um poema que, ao lê-lo, nem sentirias que ele já estivesse escrito, mas que fosse brotando, no mesmo instante, de teu próprio coração.

Quintana me fez pensar sobre os motivos que me bloquearam a escrever poemas. Não sei o que acontece comigo, mas não estou tão criativo como estava no passado. As mudanças em minha vida foram para melhores, me deram mais estabilidade, me deixaram mais feliz e acho que isso me fez mal poeticamente falando. Não que eu esteja reclamando - no sentido material - mas sinto falta das poesias que eu fazia.

Conclusão: não uso mais o coração. Não consigo viver "poeticamente" como vivia antigamente, sentindo os "tapas" que a vida me dava, "machucando-me" com os fatos e palavras que caiam em minha mente.

As coisas agora acontecem com menos explosão. Tanto que não chegam ao coração. Estou mais vazio. Sinto-me mais vazio. E só por sentir-me vazio seria um motivo para escrever. Mas estou bloqueado.

Quintana continua:

DA ALMA
A alma é essa coisa que nos pergunta se a alma existe.

Estou deixando também de combater as pessoas que me irritam, que falam baboseiras, que se expressam diferente do que eu penso. Religiosamente, por exemplo, não me importo mais sobre o que pensam a respeito de Deus e dos homens. Não me interessa mais saber se vão - ou se vou - para o Céu ou para outro lugar.

E para acabar comigo, Quintana reclamou de algo que, depois dele próprio, Quintana, virou um pesadelo para todos os poetas posteriores, como eu me considero:

CÁ ENTRE NÓS
Os clássicos escreviam tão bem porque não tinham os clássicos para atrapalhar.

Imagina agora que tudo já foi dito! O que me sobrou? Repito palavras, frases, confundindo aos leitores em procurar saber de onde "plagiei".

Eu não lia muito até um tempo atrás. Poesia, principalmente. Lia os poemas clássicos, os mais acessíveis. E de mim brotaram ótimas histórias poéticas, fiz excelentes poemas, elogiados pelos amigos. E não é que depois que passei a ler muito mais as obras completas fui descobrindo que algumas coisas que eu disse já foram ditas lá no passado!

E me senti como um plagiador espiritual. Para quem já conhecia as obras clássicas, os poemas clássicos, o que eu estava fazendo? Apenas mudando palavras de lugar e plagiando, plagiando, plagiando. Isso me tirou um pouco da motivação, não nego. Acho que me prejudicou nas futuras criações.

Agora, aqui em Rio Claro, minha vida está correndo em diferentes ritmos. Estou procurando mudar mais do que jamais mudei. Acho que a idade está ajudando. É o meu cinquentenário e acho que agora é a hora de colocar em prática o que planejei durante os últimos anos.

Para ficar perfeito e todos os meus planos darem certo, preciso ganhar 500 mil reais na loteria. Digo ganhar na loteria porque não vejo outra forma de ganhar tal soma. Vendendo livros? Não, jamais! Isso é coisa do passado.

E por falar em passado, quando se completa cinquenta anos de idade a gente começa a pensar que o mais forte é o passado. Mais isso é coisa para outro post. O passado e as pequenas dores no peito que estou tendo ultimamente.

Jorge Leite de Siqueira, em uma manhã insone.

07 janeiro 2016

Mário Quitana - Caderno H

A COISA

A gente pensa uma coisa, acaba escrevendo outra e o leitor entende uma terceira coisa... e, enquanto se passa tudo isso, a coisa propriamente dita começa a desconfiar que não foi propriamente dita.

CONTO DE HORROR

E um dia os homens descobriram que esses discos voadores estavam observando apenas a vida dos insetos...

DA VIDA SOLITÁRIA

Os eremitas deixavam apenas as más companhias pela má companhia.

O TRÁGICO DILEMA

Quando alguém pergunta a um autor o que este quis dizer, é porque um dos dois é burro.

POEMINHO DO CONTRA

Todos esses que aí estão
Atravancando o meu caminho,
Eles passarão...
Eu passarinho!


06 janeiro 2016

Poesia - Lápide

Quando eu me for
embora
não levarei nada.

Quando a hora chegar
do sono finalmente me acalmar
não deixarei nada.

Nada!
Nem casas
nem carros
nem um mínimo saldo bancário.
Nada.

Quando eu for
embora
para a cidade mágica do sono eterno
que as minhas palavras
tragam-me de volta
para aquecer
o seu coração...

Palavras.
É só o que deixarei...

JORGE LEITE DE SIQUEIRA


05 janeiro 2016

EBOOKS

Quer ler mais sem "sentir dor no bolso"? Separamos sites incríveis que disponibilizam obras para download gratuito. Baixe e-books de forma legal, economize e viaje para lugares incríveis na frente do computador (ou do tablet, ou do reader):
1. Open Library - o site (que quer catalogar todos os livros do mundo) possui mais de um milhão de obras para download gratuito, em diversas línguas. Entre os livros em português, encontramos contos e romances de Monteiro Lobato, José de Alencar e Machado de Assis, por exemplo. Se você sabe ler em inglês, as opções são inúmeras.
2. Portal Domínio Público - lista obras em diversas línguas (incluindo 2 mil livros em português) que já estão em domínio público. É possível ler "A Divina Comédia", de Dante, por exemplo.
3. Projeto Gutemberg - mais de 100 mil livros em diversas línguas. Podem ser baixados em vários formatos.
4. eBooks Brasil - o site tem uma cara antiga e navegação pouco intuitiva, mas seu acervo funciona perfeitamente. Basta navegar pelo formato desejado de eBook pelos links logo abaixo da logomarca e buscar o que você deseja ler.
5. Obras raras da USP - o site reúne imagens de edições incríveis. O acervo ainda é pequeno (não mais que 30 livros) - mas só a chance de explorar essa edição impressionante de Dom Quixote vale a visita. 
6. Wikisource - a "biblioteca" da Wikipedia reúne livros que estão sob domínio público ou sob a licença "Creative Commons".  Na versão lusófona, temos mais de 27 mil textos disponíveis, divididos em categorias como períodos literários, países de origem e anos em que foram escritos.

04 janeiro 2016

Frases famosas de escritores

Não vemos as coisas como elas são, mas como nós somos.
Anaïs Nin

A moral é a debilidade do cérebro.
Arthur Rimbaud

O que realmente deixa um homem lisonjeado é o fato de você o considerar digno de adulação.
Bernard Shaw

Há livros escritos para evitar espaços vazios na estante.
Carlos Drummond de Andrade

Respirar é uma doença!
Charles Bukowski

Engolimos de uma vez a mentira que nos adula e bebemos gota a gota a verdade que nos amarga.
Denis Diderot

Políticos e fraldas devem ser trocados de tempos em tempos pelo mesmo motivo.
Eça de Queiróz

Felicidade em pessoas inteligentes é a coisa mais rara que conheço.
Ernest Hemingway

Não me venham com conclusões! A única conclusão é morrer.
Fernando Pessoa

A mentira é o único privilégio do homem sobre todos os outros animais.
Fiódor Dostoiévski

Ninguém pode ser sábio de estômago vazio.
George Eliot

Em tempos de embustes universais, dizer a verdade se torna um ato revolucionário.
George Orwell

Algo deve mudar para que tudo continue como está.
Giuseppe Tomasi di Lampedusa

Tenha cuidado com a tristeza. É um vício.
Gustave Flaubert

Não há mentira pior do que uma verdade mal compreendida por aqueles que a ouvem.
Henry James

É permissível a cada um de nós morrer pela sua fé, mas não matar por ela.
Hermann Hesse

É pecado pensar mal dos outros, mas raramente é engano.
H. L. Mencken

É tão absurdo dizer que um homem não pode amar a mesma mulher toda a vida, quanto dizer que um violinista precisa de diversos violinos para tocar a mesma música.
Honoré de Balzac

Os criacionistas fazem com que uma teoria pareça uma coisa que se inventou depois de beber a noite inteira.

Isaac Asimov

A verdadeira função do homem é viver, não existir.
Jack London

A única exigência que faço aos meus leitores é que devem dedicar as suas vidas à leitura das minhas obras.

James Joyce

Quem é que quer flores depois de morto?
J. D. Salinger

A democracia é um erro estatístico, porque na democracia decide a maioria e a maioria é formada de imbecis.
Jorge Luis Borges

Viver é negócio muito perigoso.
João Guimarães Rosa

Luz, mais luz.
Johann Wolfgang von Goethe

O horror! O horror!
Joseph Conrad

Um pouco de desprezo economiza bastante ódio.
Jules Renard

Ser valente é muito mais fácil do que ser homem.
Julio Cortázar

O ciúme é um latido que atrai cães.
Karl Kraus

Humanista é uma pessoa com grande interesse pelos seres humanos. Meu cachorro é humanista.
Kurt Vonnegut

Todas as famílias felizes se parecem; cada família infeliz é infeliz à sua maneira.
Liev Tolstói

A solidão é a mãe da sabedoria.
Laurence Sterne

Estar sozinho é treinarmo-nos para a morte.
Louis-Ferdinand Céline

Assim é, se lhe parece.
Luigi Pirandello

Aquele que lê maus livros não leva vantagem sobre aquele que não lê livro nenhum.
Mark Twain

Não há regra sem exceção.
Miguel de Cervantes

Toda mulher gosta de apanhar.
Nelson Rodrigues

Quanto mais sublimes forem as verdades mais prudência exige o seu uso; senão, de um dia para o outro, transformam-se em lugares comuns e as pessoas nunca mais acreditam nelas.
Nikolai Gógol

Viver é a coisa mais rara do mundo. A maioria das pessoas apenas existe.
Oscar Wilde

Qual é a tarefa mais difícil do mundo? Pensar.
Ralph Waldo Emerson

A política talvez seja a única profissão para a qual não se julga necessária uma preparação.
Robert Louis Stevenson

Quando uma pessoa sofre um delírio, se chama loucura. Quando muitas pessoas sofrem um delírio, isso se chama religião.
Robert M. Pirsig

Não há nenhum pensamento importante que a burrice não saiba usar, ela é móvel para todos os lados e pode vestir todos os trajes da verdade.
Robert Musil

Respirei fundo e escutei o velho e orgulhoso som do meu coração. Eu sou, eu sou, eu sou.
Sylvia Plath

Nada inspira mais coragem ao medroso do que o medo alheio.
Umberto Eco

Nossa existência não é mais que um curto circuito de luz entre duas eternidades de escuridão.
Vladimir Nabókov

A gargalhada é o sol que varre o inverno do rosto humano.
Victor Hugo

Devemos julgar um homem mais pelas suas perguntas que pelas respostas.
Voltaire

A vida é uma história contada por um idiota, cheia de som e de fúria, sem sentido algum.
William Shakespeare

02 janeiro 2016

POESIA E MÚSICA

Poesia: FUMO 
Poeta: Florbela Espanca
Música: Fagner

Longe de ti são ermos os caminhos,
Longe de ti não há luar nem rosas,
Longe de ti há noites silenciosas,
Há dias sem calor, beirais sem ninhos!

Meus olhos são dois velhos pobrezinhos
Perdidos pelas noites invernosas...
Abertos, sonham mãos cariciosas,
Tuas mãos doces, plenas de carinhos!


Os dias são Outonos: choram... choram...
Há crisântemos roxos que descoram...
Há murmúrios dolentes de segredos...


Invoco o nosso sonho! Estendo os braços!
E ele é, ó meu Amor, pelos espaços,
Fumo leve que foge entre os meus dedos!...
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Poesia: JOSÉ
Poeta: Carlos Drummond de Andrade
Música: Paulo Diniz





E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, você?
você que é sem nome,
que zomba dos outros,
você que faz versos,
que ama, protesta?
e agora, José?

Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?

E agora, José?
Sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio — e agora?

Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora?

Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse...
Mas você não morre,
você é duro, José!

Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja a galope,
você marcha, José!
José, para onde?


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Poesia: TEMA DE "OS INCONFIDENTES"
Poeta: Cecília Meireles
Música: Chico Buarque






Toda vez que um justo grita,
um carrasco o vem calar.
Quem não presta, fica vivo;
quem é bom, mandam matar.
Quem não presta, fica vivo;
quem é bom, mandam matar.    [do Romance V]

Foi trabalhar para todos...
— e vede o que lhe acontece!
Daqueles a quem servia,
já nenhum mais o conhece.
Quando a desgraça é profunda,
que amigo se compadece?

Foi trabalhar para todos...
Mas, por ele, quem trabalha?
Tombado fica seu corpo,
Nessa esquisita batalha.
Suas ações e seu nome,
por onde a glória os espalha?    [do Romance LIX]

Por aqui passava um homem
— e como o povo se ria! —
que reformava este mundo
de cima da montaria.

Por aqui passava um homem...
— e como o povo se ria! —
Ele, na frente, falava
e, atrás, a sorte corria...

Por aqui passava um homem
— e como o povo se ria! —
"Liberdade ainda que tarde"
nos prometia.

Por aqui passava um homem...
— e como o povo se ria! —
No entanto, à sua passagem,
Tudo era como alegria.

Por aqui passava um homem
— e como o povo se ria! —
"Liberdade ainda que tarde"
nos prometia.                          [do Romance XXXI]

Toda vez que um justo grita,
um carrasco o vem calar.
Quem não presta fica vivo;
quem é bom, mandam matar.
Quem não presta fica vivo;
quem é bom mandam matar.    [do Romance V]

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Poesia: CANÇÃO AMIGA
Poeta: Carlos Drummond de Andrade
Música: Milton Nascimento



Eu preparo uma canção
em que minha mãe se reconheça,
todas as mães se reconheçam,
e que fale como dois olhos.

Caminho por uma rua
que passa em muitos países.
Se não me veem, eu vejo
e saúdo velhos amigos.

Eu distribuo um segredo
como quem ama ou sorri.
No jeito mais natural
dois carinhos se procuram.

Minha vida, nossas vidas
formam um só diamante.
Aprendi novas palavras
e tornei outras mais belas.

Eu preparo uma canção
que faça acordar os homens
e adormecer as crianças.

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Poesia: TEM GENTE COM FOME
Poeta: Solano Trindade
Música: João Ricardo
Cantor: Ney Matogrosso






Trem sujo da Leopoldina
correndo correndo
parece dizer
tem gente com fome
tem gente com fome
tem gente com fome

Piiiii

Estação de Caxias
de novo a correr
de novo a dizer
tem gente com fome
tem gente com fome
tem gente com fome

Tantas caras tristes
querendo chegar
em algum destino
em algum lugar

Só nas estações
quando vai parando
começa a dizer
se tem gente com fome
dá de comer
se tem gente com fome
dá de comer
se tem gente com fome
dá de comer

Mas o freio de ar
todo autoritário
manda o trem calar
Psiuuuuuuuuuu.


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Poesia: CIRCULADÔ DE FULÔ
Poeta: Haroldo de Campos
Música: Caetano Veloso




circuladô de fulô ao deus ao demodará que deus te guie porque eu não posso guiá eviva quem já me deu circuladô de fulô e ainda quem falta me dá

soando como um shamisen e feito apenas com um arame tenso um cabo e uma lata velha num fim de festafeira no pino do sol a pino mas para outros não existia aquela música não podia porque não podia popular aquela música se não canta não é popular se não afina não tintina não tarantina e no entanto puxada na tripa da miséria na tripa tensa da mais megera miséria física e doendo doendo como um prego na palma da mão um ferrugem prego cego na palma espalma da mão coração exposto como um nervo tenso retenso um renegro prego cego durando na palma polpa da mão ao sol

o povo é o inventalínguas na malícia da mestria no matreiro da maravilha no visgo do improviso tenteando a travessia azeitava o eixo do sol

e não peça que eu te guie não peça despeça que eu te guie desguie que eu te peça promessa que eu te fie me deixe me esqueça me largue me desamargue que no fim eu acerto que no fim eu reverto que no fim eu conserto e para o fim me reservo e se verá que estou certo e se verá que tem jeito e se verá que está feito que pelo torto fiz direito que quem faz cesto faz cento se não guio não lamento pois o mestre que me ensinou já não dá ensinamento


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Poesia: TREM DE FERRO
Poeta: Manuel Bandeira
Música: Tom Jobim

 


Café com pão
Café com pão
Café com pão

Virge Maria que foi isso maquinista?

Agora sim
Café com pão
Agora sim
Voa, fumaça
Corre, cerca
Ai seu foguista
Bota fogo
Na fornalha
Que eu preciso
Muita força
Muita força
Muita força

Oô...
Foge, bicho
Foge, povo
Passa ponte
Passa poste
Passa pasto
Passa boi
Passa boiada
Passa galho
De ingazeira
Debruçada
No riacho
Que vontade
De cantar!

Oô...
Quando me prendero
No canaviá
Cada pé de cana
Era um oficiá
Oô...
Menina bonita
Do vestido verde
Me dá tua boca
Pra matá minha sede
Oô...
Vou mimbora vou mimbora
Não gosto daqui
Nasci no sertão
Sou de Ouricuri
Oô...

Vou depressa
Vou correndo
Vou na toda
Que só levo
Pouca gente
Pouca gente
Pouca gente...



01 janeiro 2016

CONTO - O SUPER HERÓI BOMBA



 
Elias suava. Suas mãos trabalhavam rapidamente devido à sua experiência como Químico e um rápido curso de eletroeletrônica. Abriu o aparelho de celular e foi preparando o dispositivo de explosão. Era assim que ele o chamava. O dispositivo era simples, já que havia o envolvimento de outras pessoas que facilitaram seu trabalho: havia uma placa eletrônica de acionamento por controle remoto, havia o acionador (ou detonador como ele gostava de chamar) e havia o explosivo propriamente dito. O explosivo veio pronto, preparado pelo seu amigo da Argentina. Era um pequeno pacote do tamanho exato da bateria do celular. Media exatos cinco centímetros de comprimento, três de largura e meio de profundidade. Na parte superior havia um fio que o ligava à placa eletrônica que media metade do tamanho do explosivo.


Cuidadosamente ele colocou o explosivo no compartimento da bateria do celular – que não seria usada – e encaixou o fio superior à placa eletrônica. Ativou o botão de ignição, o que implicava num impossível arrependimento. O modus operandi era simples: afastando-se o detonador do explosivo a uma distância superior a dez metros e a placa eletrônica faria detonar o explosivo. Fechou o celular e o deixou no lado direito de sua mesa com o detonador por cima. Agora era a vez da carteira de dinheiro.


Abriu-a e conferiu as cópias de cédulas de vinte reais. Se fossem verdadeiras teria no bolso mais de mil reais, mas eram falsas, impressas ali mesmo, em sua impressora doméstica. Colocou uma nota de dez reais verdadeira sobre as outras notas, guardou o dinheiro na carteira e abriu a carteira ao meio, onde colocou o explosivo do mesmo tamanho do que usou no celular. Usou o espaço na carteira onde colocaria o talão de cheques. Acionou o botão de ignição e a partir daí não podia mais afastar a carteira de seu detonador. Simples.


Era a primeira vez que bancava o super herói. Estava revoltado com a violência que havia se impregnado na sua cidade natal: São Paulo. Os políticos pouco faziam e a justiça cada vez mais permitia que os bandidos tomassem conta da cidade. Elias cansou de se defender e agora partiria para o ataque. Iria acabar com a violência no país, começando por São Paulo.


Levou o celular e a carteira para o carro, colocou cuidadosamente no banco do passageiro e partiu para o centro. Já havia planejado que o primeiro ataque seria na Praça da Sé. Estacionou na Avenida da Liberdade, bem atrás da Catedral, respirou fundo pois o que iria fazer iria influenciar todo o seu futuro. Tinha certeza de que era necessário acabar com aquela impunidade, colocou o celular num bolso, o detonador no outro, mais seguro, e seguiu para a praça. No centro da praça tirou o celular e começou a interpretar uma conversa com alguém inexistente. Falava e gesticulava para chamar a atenção dos bandidos. A sua intenção era que alguém o abordasse e roubasse o seu aparelho telefônico. E em menos de dez minutos foi o que realmente aconteceu: sentiu um esbarrão de um lado e alguém retirou o aparelho de sua mão do outro lado. Eram dois rapazes que saíram correndo, um deles com o celular na mão.


Foram apenas alguns segundos até que ocorresse a explosão. O estrondo foi enorme, parecia uma enorme bomba de São João, subiu muita fumaça do local e um corpo foi ao chão imediatamente. O rapaz ainda gritava de dor enquanto o sangue jorrava do resto de braço que sobrou. Uma das mãos fora arrancada junto ao estômago onde estava sendo colocado o aparelho.


Ninguém entendeu o que estava acontecendo e apenas o amigo do ladrão percebeu que o problema estava no aparelho roubado, mas correu para longe dali.


Elias aproveitou a confusão para sair na direção contrária, em direção ao seu carro. Sentado no banco do motorista pensou no que aconteceu e ficou contente. Era isso mesmo que pretendia: matar apenas o ladrão, sem ferir ninguém mais. Pegou a carteira, colocou no bolso da calça e foi para um ponto de ônibus. Tomou o primeiro ônibus que passou, lotado. Subiu ao ônibus, puxou a carteira, tirou a nota verdadeira chamando a atenção para as outras notas e pagou a passagem. Sabia que se tivesse algum bandido ali no ônibus ele estaria atento aos seus movimentos. Elias queria ser uma vítima.



Colocou a carteira no banco traseiro da calça e o detonador no bolso dianteiro, e ficou em pé, perto dos outros passageiros. Não demorou muito e sentiu que dois rapazes esbarravam nele. Elias sabia que estava sendo roubado. Logo em seguida o sinal do ônibus tocou e dois rapazes desceram sorrindo pela porta traseira e se dirigiram contra o sentido do ônibus.


Foi a última coisa que Elias viu. Em seguida aconteceu uma grande explosão no meio do ônibus que desencadeou um incêndio causando uma enorme confusão. Além de Elias, morreram mais três pessoas que estavam ao seu lado, além de oito feridos.


No dia seguinte os principais jornais destacaram o primeiro atentado terrorista no Brasil. Falaram sobre os dois rapazes que saíram rapidamente carregando o detonador que causou a explosão. Capturados, os rapazes confessaram o assalto, mas informaram que a única coisa que pegaram no bolso dianteiro da calça do rapaz foi uma espécie de controle remoto e não foram os causadores da explosão.


Até hoje é um grande mistério o que aconteceu naquele atentado, mas a Al Qaeda já informou que foi responsável pela morte daquele super herói.



Autor: JORGE LEITE DE SIQUEIRA

Dez mitos sobre dietas

Muitos mitos você com certeza já deve ter ouvido e talvez até possa acreditar, mas o fato é que não correspondem à realidade. Aqui vão ...