01 janeiro 2016

CONTO - O SUPER HERÓI BOMBA



 
Elias suava. Suas mãos trabalhavam rapidamente devido à sua experiência como Químico e um rápido curso de eletroeletrônica. Abriu o aparelho de celular e foi preparando o dispositivo de explosão. Era assim que ele o chamava. O dispositivo era simples, já que havia o envolvimento de outras pessoas que facilitaram seu trabalho: havia uma placa eletrônica de acionamento por controle remoto, havia o acionador (ou detonador como ele gostava de chamar) e havia o explosivo propriamente dito. O explosivo veio pronto, preparado pelo seu amigo da Argentina. Era um pequeno pacote do tamanho exato da bateria do celular. Media exatos cinco centímetros de comprimento, três de largura e meio de profundidade. Na parte superior havia um fio que o ligava à placa eletrônica que media metade do tamanho do explosivo.


Cuidadosamente ele colocou o explosivo no compartimento da bateria do celular – que não seria usada – e encaixou o fio superior à placa eletrônica. Ativou o botão de ignição, o que implicava num impossível arrependimento. O modus operandi era simples: afastando-se o detonador do explosivo a uma distância superior a dez metros e a placa eletrônica faria detonar o explosivo. Fechou o celular e o deixou no lado direito de sua mesa com o detonador por cima. Agora era a vez da carteira de dinheiro.


Abriu-a e conferiu as cópias de cédulas de vinte reais. Se fossem verdadeiras teria no bolso mais de mil reais, mas eram falsas, impressas ali mesmo, em sua impressora doméstica. Colocou uma nota de dez reais verdadeira sobre as outras notas, guardou o dinheiro na carteira e abriu a carteira ao meio, onde colocou o explosivo do mesmo tamanho do que usou no celular. Usou o espaço na carteira onde colocaria o talão de cheques. Acionou o botão de ignição e a partir daí não podia mais afastar a carteira de seu detonador. Simples.


Era a primeira vez que bancava o super herói. Estava revoltado com a violência que havia se impregnado na sua cidade natal: São Paulo. Os políticos pouco faziam e a justiça cada vez mais permitia que os bandidos tomassem conta da cidade. Elias cansou de se defender e agora partiria para o ataque. Iria acabar com a violência no país, começando por São Paulo.


Levou o celular e a carteira para o carro, colocou cuidadosamente no banco do passageiro e partiu para o centro. Já havia planejado que o primeiro ataque seria na Praça da Sé. Estacionou na Avenida da Liberdade, bem atrás da Catedral, respirou fundo pois o que iria fazer iria influenciar todo o seu futuro. Tinha certeza de que era necessário acabar com aquela impunidade, colocou o celular num bolso, o detonador no outro, mais seguro, e seguiu para a praça. No centro da praça tirou o celular e começou a interpretar uma conversa com alguém inexistente. Falava e gesticulava para chamar a atenção dos bandidos. A sua intenção era que alguém o abordasse e roubasse o seu aparelho telefônico. E em menos de dez minutos foi o que realmente aconteceu: sentiu um esbarrão de um lado e alguém retirou o aparelho de sua mão do outro lado. Eram dois rapazes que saíram correndo, um deles com o celular na mão.


Foram apenas alguns segundos até que ocorresse a explosão. O estrondo foi enorme, parecia uma enorme bomba de São João, subiu muita fumaça do local e um corpo foi ao chão imediatamente. O rapaz ainda gritava de dor enquanto o sangue jorrava do resto de braço que sobrou. Uma das mãos fora arrancada junto ao estômago onde estava sendo colocado o aparelho.


Ninguém entendeu o que estava acontecendo e apenas o amigo do ladrão percebeu que o problema estava no aparelho roubado, mas correu para longe dali.


Elias aproveitou a confusão para sair na direção contrária, em direção ao seu carro. Sentado no banco do motorista pensou no que aconteceu e ficou contente. Era isso mesmo que pretendia: matar apenas o ladrão, sem ferir ninguém mais. Pegou a carteira, colocou no bolso da calça e foi para um ponto de ônibus. Tomou o primeiro ônibus que passou, lotado. Subiu ao ônibus, puxou a carteira, tirou a nota verdadeira chamando a atenção para as outras notas e pagou a passagem. Sabia que se tivesse algum bandido ali no ônibus ele estaria atento aos seus movimentos. Elias queria ser uma vítima.



Colocou a carteira no banco traseiro da calça e o detonador no bolso dianteiro, e ficou em pé, perto dos outros passageiros. Não demorou muito e sentiu que dois rapazes esbarravam nele. Elias sabia que estava sendo roubado. Logo em seguida o sinal do ônibus tocou e dois rapazes desceram sorrindo pela porta traseira e se dirigiram contra o sentido do ônibus.


Foi a última coisa que Elias viu. Em seguida aconteceu uma grande explosão no meio do ônibus que desencadeou um incêndio causando uma enorme confusão. Além de Elias, morreram mais três pessoas que estavam ao seu lado, além de oito feridos.


No dia seguinte os principais jornais destacaram o primeiro atentado terrorista no Brasil. Falaram sobre os dois rapazes que saíram rapidamente carregando o detonador que causou a explosão. Capturados, os rapazes confessaram o assalto, mas informaram que a única coisa que pegaram no bolso dianteiro da calça do rapaz foi uma espécie de controle remoto e não foram os causadores da explosão.


Até hoje é um grande mistério o que aconteceu naquele atentado, mas a Al Qaeda já informou que foi responsável pela morte daquele super herói.



Autor: JORGE LEITE DE SIQUEIRA

Nenhum comentário:

Dez mitos sobre dietas

Muitos mitos você com certeza já deve ter ouvido e talvez até possa acreditar, mas o fato é que não correspondem à realidade. Aqui vão ...