Poesia 1503 – O início da nova viagem
Um dia, tive tudo.
O sol, a lua,
As estrelas, todas, foram minhas.
O mar era meu
A praia, tudo, até Netuno...
Eu era feliz quando tinha o mar...
Um dia, tive dinheiro.
Tinha carro, casas.
Eu tive amigos.
Sério! Pode acreditar!
Eu tive amigos...
Eu tive patrão,
Tive emprego.
Eu tinha rotina...
Sei que você não vai acreditar
Mas, eu tive sentimentos.
Tive tristeza, ódios,
Mas também tinha alegria, amor...
Sei que sou repetitivo
Sei que pareço piegas,
Mas, quem teve tudo pode ser ridículo...
Honra!
Humor!
Amor!
Não sei quando perdi tudo.
Acho que foi aos poucos
Homeopaticamente...
Começou quando recusei alguns convites
Quando evitei certas pessoas
Quando dispensei alguns trabalhos...
E hoje estou aqui
Sozinho, desempregado,
Abandonado...
Não estou mal, acredite.
Pareço pior do que estou...
Também, não estou bem...
Não quero tudo de volta
Quero um pouco
Apenas uma pequena parte...
Estou correndo atrás...
Um emprego qualquer me ajuda
Pode ser vigia, gari,
Qualquer um
Mas, gerente não quero mais...
Não quero mandar em ninguém...
Quero um lugar para morar.
Um quarto e sala
Afinal, estou sozinho...
Casa grande dá muito trabalho...
Quero uma bicicleta.
Carro, não, por favor.
Ah! Quero um amigo!
Apenas um...
Não quero um monte de conhecidos...
Quero um aperto de mão em meu aniversário
E não um monte de scraps...
Quero escrever!
Quero viver de escrever
Mesmo que nunca fique famoso...
Não quero o que tive!
De jeito nenhum.
Quero outras coisas
Quero viver outras emoções
Quero errar novamente
Quero acertar, também...
Não quero ser ninguém.
Como sou...
Não sou ninguém,
Mas, sinto-me um nada.
Não gosto de me sentir assim
Pois sei quem eu sou...
E sou muito forte...
Tenho poder espiritual
O que ninguém vê.
Só vêem fracasso
Derrota, tristeza...
Só vêem o que é socialmente perceptível...
Vou mudar!
Não serei rico
Mas, serei feliz.
Mesmo que não chame a atenção...
Não era feliz, quando tive tudo,
Mas, agora serei feliz, tendo a mim.
E quem vier comigo
Venha pelo que sou
E não pelo que tenho...
Prepare-se
A viagem está apenas começando...

Poesia 1504 – No shopping com Deus
A moça é esnobe
O rapaz é deficiente
A mulher é gorda
O homem é musculoso
A menina come sem educação
O menino chora...
Brancos, negras,
Loiras, morenos,
Cabelos lisos, encaracolados,
Olhos verdes, negros,
Felizes, tristes...
Meu Deus!
Quanto mais eu olho
Mais vejo as diferenças...
Que forma é essa?
Quem moldou isso tudo?
Quantos lápis de cor...
Não quero mais ser ateu...
Poesia 1505 – Família no shopping
Cinco pessoas no shopping.
Pai, mãe, filhos,
Bob’s, Mc Donald’s,
Cinqüenta reais, sessenta,
Em quinze minutos...
Com cinema?
Mais sessenta reais...
Qual a solução?
Não ter filhos?
Não casar?
Não viver?
É cada um para si...

Poesia 1506 – Amazônia
Uma bomba atômica
E a Amazônia explode!
Um câncer
No pulmão do mundo...
Em português ruim
Eu tusso
Tu tosses
Nós morremos...
Em péssima matemática
Menos uma árvore
Mais animais em extinção...
Em uma real Biologia...
Sem ar
Sem oxigênio
Loucura capitalista
Contrariando a lógica...
Multiplicam-se os homens
Divide-se o futuro...
Derrubam árvores
Nascem meninos
Proporção?
Na mesma em que queima o pavio
Da bomba que exterminará a vida na Terra...
E pensar que nunca fumei...
Poesia 1507 – 2012
Acordo
Vinte e um de dezembro
Dois mil e doze...
Sexta-feira...
Vou virar o calendário
Mas não encontro o sábado...
São nove horas
Daqui a pouco tudo acabará.
Recebi a mensagem
O pessoal de Antares está a caminho...
Daqui a pouco estarei livre...
Livre dessa carne
Dessa gente
Desse mundo...
Até que enfim voltarei para Antares...
Poesia 1508 – Carência
Queria ser
Ao menos uma vez
Um por do sol...
Não quero muito
Quero uma vez
Só uma vez...
Mesmo que eu jamais volte
Mesmo que eu morra
Eu queria ser um por do sol...
Por do sol.
Igual aquele que você admirou
Que ficou paralisada
Que não piscou
Que ficou maravilhada
E até sonhou...
Igual aquele por do sol
Que, em cinco minutos,
Você se apaixonou...
Um por do sol
Único
Em sua vida...
Queria ser um por do sol!
Mesmo que por cinco minutos
Mas, que fosse único para você...
Queria ter seu amor por, pelo menos, cinco minutos...
Poesia 1509 – Uma chance
Uma chance
E te vi.
Passou rápido
Mas deixou o cheiro
E um brilho em meus olhos...
Uma chance
E te falei.
Um cumprimento
Coisas da vida
E um pedido de casamento...
Uma chance
E te beijei.
A proximidade
O coração acelerado
E a certeza que o amor existe...
Uma chance
E te dei minha vida.
Aos poucos
Dia a dia
Por um dia
E pela eternidade...
Precisei apenas de uma chance...
Poesia 1510 – Megiro
Recebo a ordem
Devo descer à Terra
Assumir um corpo
E corrigir defeitos...
Meus, não do corpo...
Olhos verdes,
Magro, inteligente,
Bonito...
Um corpo interessante...
Que vantagens nesse corpo?
Uma vida de decepções
Brigas
Do corpo e da alma
Que não se entendem
E dão cabeçadas
Materiais
Espirituais...
Eu quero ir embora
O corpo não aceita.
Quer tentar mais um pouco...
Quarenta e cinco anos
Na próxima semana.
Que mais pode acontecer?
O que era bom já aconteceu
O que era ruim, também...
Acabou! Aceite...
Só me resta, agora, rastejar.
De corpo, não de alma.
Igual cobras
Ou insetos
Até que aceite minha opinião
E resolva irmos embora...
Vamos!
Depois a gente volta
E tenta de novo...
Poesia 1511 – Quantas mentiras
Quantas mentiras!
Meus pais iniciaram
Meus professores prosseguiram
Adultos, adultos...
E eu, tolo, acreditando em todos...
Será feliz!
Seus sonhos se realizarão!
Serei?
Quando?
Devo andar na linha
Fugir das más companhias...
Quantas mentiras...
Hoje, as más companhias sorriem, felizes,
Viveram intensamente
Enquanto eu...
Eu?
Nada me resta...
Tudo me foi tomado...
Poesia 1512 – Identidade
Não tenho nome
Não tenho referências
Não tenho nada...
Minhas digitais foram raspadas
Minha arcada dentária foi arrancada
Meu DNA foi apagado...
Não tenho!
Não sou!
Não...
Hoje, sou pura negação!
Meu nome é não
É nenhum.
Sou sombra, sem luz,
Apagado, sou cinza, sem cor,
Silêncio,
Sou falta, sou menos,
Sem, não, nunca...
Quer me encontrar?
Procure por ninguém...
Poesia 1513 – Rimando
Mal
Natal
Legal...
Brasil!
Puta que pariu...
Carnaval?
Que tal?
No meu quintal?
Brasil!
Eu e meu tio...
Com til?
Não?
Ladrão?
Alucinação!
Brasil!
Arrepio
Calafrios...
Mal
Estou mal
E está chegando o Natal...
Ó
Vou ficar pior...

Poesia 1514 – Violão
O dedo passeia
Os dedos apertam
Cordas, casas, pestanas, acordes...
Dedilhados, batidas...
Claves
Notas e pausas
Maior, menor, sustenido, bemol...
Na televisão, fácil,
Mas, por que só sei tocar uma música?